Ciclo menstrual e produtividade: ENSP promove evento sobre rotina e ritmo hormonal
Por Bruna Abinara
Na manhã desta quarta-feira (26/3), a Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) recebeu a biomédica especialista em neurociência e comportamento Anna Müller para a palestra “Ciclo menstrual e produtividade: como alinhar sua rotina ao seu ritmo hormonal”. Na parte da tarde, a educadora menstrual e instrutora de percepção de fertilidade também participou da oficina “Criando um Planejamento Cíclico para uma rotina mais sustentável”. O evento está disponível no canal da ENSP no Youtube; assista!
“Metade da população mundial vivencia oscilações relacionadas ao ciclo menstrual, ainda assim, fala-se muito pouco sobre isso”, introduziu a palestrante ao refletir sobre a importância de se levar em conta o ritmo hormonal quando se pensa em produtividade. Anna destacou que, apesar de a maioria das pessoas buscarem uma linearidade na rotina, estudos comprovam que as diferentes fases do ciclo têm um impacto significativo no corpo, sendo imprescindível compreender essas variações para garantir o bem-estar. “Para que possamos construir uma sociedade com mais diversidade e equidade, precisamos compreender quais são os recursos e necessidades individuais de cada ser humano e é impossível fazer isso sem endereçar a ação dos hormônios”, elaborou.
A biomédica explicou as diferenças de cada etapa do ciclo menstrual e como elas podem afetar o corpo e a rotina de cada indivíduo, ressaltando a importância de não adotar óticas sexistas ou misóginas ao compreender as variações hormonais. Anna contextualizou que há uma ideia de que a menstruação deve ser muito dolorida, o que dificulta o tratamento de pessoas que passam por dores incapacitantes ou sintomas muito fortes durante o ciclo. Ela reforça que não existe nada no corpo feito para ser sofrido e que a naturalização das dores menstruais faz parte de uma visão ginecológica sexista que entende o corpo fora do padrão homem cis como falho. "Ter um olhar integrativo para o ser humano é o que possibilita a vivência mais saudável do ciclo. Uma coisa é entender que o processamento mental e neural muda e adaptar a vida de acordo com isso. Outra coisa é achar que está fadada a uma vida de sofrimento, o que, infelizmente, muitas vezes acontece", declarou a palestrante.
Considerando que o ciclo menstrual ainda é um tabu, Anna apostou na promoção de políticas públicas e atividades de conscientização para construir uma vivência mais saudável. Ela ressaltou a importância de a educação menstrual começar ainda na infância. "Precisamos construir, com crianças e adolescentes, uma narrativa natural da compreensão de que os hormônios são a via pela qual vivemos a vida. Precisamos levar essas informações para a população, principalmente, nas escolas, para quebrar preconceitos e construir um conhecimento para que as próximas gerações não carreguem mais esse tabu", concluiu.
+ Assista à palestra na íntegra pelo canal da ENSP no Youtube