Edital Proex/Capes ‘Saúde Pública em Diálogos com a Sociedade’ contempla seis projetos da ENSP
Cinco anos de herança da mineração violenta; Material educativo sobre sexualidade para professores e jovens indígenas, quilombolas e ribeirinhos; Violência e saúde mental nas unidades básicas de saúde, Curso online Séries temporais interrompidas: análise de intervenção em políticas de saúde; Banco de dados em saúde, trabalho e ambiente no Vale do Aço, Minas Gerais; e Guia de Pesquisa na forma de e-book interativo. Esses foram os produtos dos seis projetos contemplados pelo edital especial ‘Saúde Pública em Diálogos com a Sociedade’, lançado pelo Programa de Pós-Graduação em Saúde Pública ENSP/Fiocruz, e desenvolvidos com apoio financeiro do Programa de Excelência Acadêmica da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Proex/Capes).
Dentre os projetos contemplados, estão quatro de doutorandos e dois de pós-doutorandos, a seguir:
Cinco anos de herança da mineração violenta: saúde, trabalho e resistência nos rompimentos da barragem da Samarco, Mariana-MG (2015), e da Vale SA, Brumadinho (2019)
Segundo Denize da Silva Nogueira, doutoranda responsável pelo projeto com orientação da professora Simone Oliveira, o objetivo foi construir uma narrativa que considerasse a complexidade dos rompimentos de barragens, com base na visão dos que foram atingidos por ela. “O documentário produzido 'Vidas Suspensas: Crimes da Mineração em processo' deu voz a uma população que teve seus problemas esquecidos pela grande mídia. É uma marca dos desastres, que vão se dissolvendo aos olhos da grande mídia. Eles repetem, todos os anos, a mesma coisa; parece que a vida está paralisada, suspensa. Eles tratam isso com uma certa naturalidade”, salientou Denize.
A doutoranda tem como orientadora a pesquisadora do Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP) Simone Oliveira. A pesquisadora, que tem diversas pesquisas na área de desastres, enalteceu o trabalho da aluna, voltado a não deixar essa sociedade, atingida pelas tragédias, esquecida. “Vimos a oportunidade de dar visibilidade a diversas fases que o rompimento causa ao território, tanto para os trabalhadores da saúde como para a região.”
Segundo a orientadora, "a pesquisa se desenvolve na ideia de compreender de que maneira os trabalhadores pensam sobre o trabalho modificado e as implicações na saúde deles, além da forma como eles atuam”. Para Simone Oliveira, a produção do vídeo se justifica pela integração de conhecimentos produzidos por essas pesquisas, visando dar maior dimensão à gravidade dos casos na questão da saúde pública. “Destaca-se a urgência de se produzir reflexões sobre a interrelação dos temas saúde, trabalho e ambiente, buscando dar visibilidade às diferentes dimensões presentes num desastre. Não só relatar o que aconteceu e por que aconteceu, mas também denunciar outros possíveis e previsíveis acidentes semelhantes pelas mais de 700 barragens de resíduos de mineração no país”, explicou Simone.
O documentário “Vidas Suspensas: Crimes da Mineração em processo" está disponível no Canal da ENSP no YouTube.
A Comunidade Ampliada de Pesquisa Ação como Dispositivo de Produção Compartilhada e Difusão de Conhecimento: um guia de pesquisa
De acordo com Fátima Regina Pivetta, doutoranda responsável pelo projeto, com orientação dos professores Marcelo Firpo e Marize Bastos, o referido Guia é um dos produtos da pesquisa de doutorado “Comunidade Ampliada de Pesquisa Ação: reflexões sobre a metodologia como estratégia de Promoção Emancipatória da Saúde”, enquanto sistematização e reflexão crítica de uma experiência coletiva que se realizou ao longo dos últimos dezoito anos (2002 -2020), em que experimentaram diferentes formatos e dinâmicas de comunidades ampliadas de pesquisa-ação no âmbito do Laboratório Territorial de Maguinhos (LTM).
Já a elaboração e sistematização da metodologia CAP foi objeto do projeto “Método CAP: dispositivo de produção compartilhada e difusão de conhecimento”, apoiado pelo Programa Inova da Fiocruz (período 2018-2020), e no âmbito do qual a pesquisa de doutorado se desenvolveu (Projeto financiado pelo Programa Inova Fiocruz -Produtos Inovadores - Chamada para submissão de propostas Nº 4/2018).
Ela explicou que, com o Guia de Pesquisa, pretenderam dar visibilidade ao processo coletivo de produção de conhecimentos e contribuir para promover a relação Ciência e Sociedade, missão da Fiocruz e do próprio LTM. “Particularmente, para ser compartilhado com um público ampliado, os pesquisadores de favela que vêm se formando nos últimos anos, investindo na produção de conhecimentos, nas narrativas e nos argumentos sobre suas realidades de forma autônoma, visando ao maior fortalecimento de suas organizações e lutas coletivas”, completou.
Também disse que a tarefa de comunicação à distância é um desafio enorme e importante, especialmente no cenário atual, então buscaram potencializar as possibilidades de interação, dentro dos limites da tecnologia e-book, a partir dos recursos visuais e interativos da composição do livro com nossos materiais produzidos coletivamente, que dão visibilidade ao que propomos em cada etapa e atividade de um Itinerário CAP.
Para Fátima, a escolha de recursos simples atende, principalmente, o público-alvo, que são os moradores de favelas inseridos em processos de pesquisa ou em movimentos sociais e que tenham interesse em se apropriar da metodologia para a promoção de ações locais, para a sistematização de informações, a visibilidade dos processos aos quais estão inseridos e no fortalecimento de redes coletivas que existem nestes territórios. “Este é um público que, apesar do acesso à internet, ainda tem dificuldade para se manter conectado por muito tempo, reduzindo as possibilidades de utilização das muitas possibilidades de ferramentas de interatividade fornecidas atualmente pela internet”.
O Guia está em fase de finalização, restando apenas a obtenção dos links permanentes dos materiais inseridos na plataforma ARCA da Fiocruz, cujo processo está em andamento.
Material educativo sobre sexualidade para professores e jovens indígenas, quilombolas e ribeirinhos de Santarém-PA
Para Elaine Cristiny Evangelista dos Reis, doutoranda responsável pelo projeto, orientada pelas professoras Marly Cruz e Eliane Vargas, no contexto educacional contemporâneo, abordar temáticas relacionadas à sexualidade, exige a capacidade de desenvolver experiências pedagógicas diversificadas e alinhadas com a sociedade na qual os jovens estão inseridos. Nessa perspectiva, o objetivo do material educativo foi estruturar uma cartilha para provocar reflexões no campo da sexualidade, pautada naquilo que é significativo para os jovens, sem uma intencionalidade em reforçar os padrões de saúde definidos pelas instâncias governamentais projetados em mudanças comportamentais.
A cartilha para orientação sexual de jovens indígenas produzida foi planejada considerando as necessidades da cidade Santarém, no estado do Pará, que é a segunda maior unidade federativa do Brasil em território e é dividido em 144 municípios, e a cidade se caracteriza por uma grande diversidade social e cultural, devido à população ser composta por quilombolas, ribeirinhos e indígenas. O material foi estruturado de forma participativa com jovens representantes indígenas, quilombolas e de áreas rurais de Santarém, no intuito de levantar os conteúdos relevantes para esses jovens, através de uma linguagem simples, acessível, usando ilustrações e desenhos para exemplificar a temática e complementar as explicações, agrupando além de aspectos biológicos e conceituais, mas também questões sociais e culturais, contextualizadas com base na perspectiva dos atores envolvidos, como integrantes de um grupo que vive diferentes juventudes em cenários de diversidade sociocultural, sendo expressado através dos costumes e aspectos sociais que são responsáveis por condutas e práticas específicas.
Segundo Elaine, a expectativa é que a cartilha possa contribuir no entendimento da sexualidade, para que os sujeitos se reconheçam neste material, compreendendo a sexualidade a partir das particularidades locais, sociais e culturais, desatrelada de propostas pedagógicas com concepções religiosas e higienistas, em cenários de vulnerabilidades individuais, sociais e programáticas que formam um espaço único, repleto de singularidades em razão do perfil epidemiológico, populações específicas, difícil acesso aos serviços de saúde e educação, apontando para a necessidade que as propostas de ensino valorizem o saber popular e a participação daqueles que não como técnicos ou cientistas vivem as questões, mas, podem ajudar a resgatar a autonomia, a identidade e protagonismo juvenil.
O material se encontra na fase de estruturação do projeto gráfico, criação de ilustrações e contextualização. Após a finalização da cartilha, será impressa e entregue para jovens em escolas e em espaços sociais, como praças, centros comunitários, orla da cidade, etc, no intuito de reduzir vulnerabilidades e ampliar o diálogo sobre a sexualidade.
Eficácia do tratamento do estresse pós-traumático com pessoas que passaram por violência nos serviços de saúde do município do Rio de Janeiro
De acordo com Fernanda Serpeloni, pós-doutoranda responsável pelo projeto, com supervisão da professora Simone Assis, o propósito do documentário jornalístico “Violência e saúde mental nas unidades básicas de saúde: por onde começar?” produzido é de sensibilizar gestores e profissionais da saúde sobre os resultados de uma experiência bem sucedida para o tratamento do estresse pós-traumático nos serviços públicos de saúde.
O documentário jornalístico apresenta os resultados do estudo piloto sobre a implantação de uma intervenção breve, baseada em evidências, a pessoas que passaram por situações de violência e apresentam sofrimento em saúde mental. “Nós atuamos em 4 serviços públicos de saúde do município do Rio de Janeiro, como clínicas da família e centros de saúde. Profissionais da saúde (médicos de família, enfermeiros, psicólogos e psiquiatras) receberam treinamento de psicólogos experientes na área do trauma e saúde pública para identificar, acolher, encaminhar e oferecer terapia focada no trauma a usuários que tinham vivenciado situações de violência e apresentavam estresse traumático”. “Nós observamos que muitos desses pacientes já tinham entrado no sistema de saúde mas estavam sendo medicados por problemas para dormir, ansiedade e somatizações associadas ao trauma, contudo a raiz do problema não estava sendo tratada”.
Ela acrescentou que os resultados mostram (dissertação da aluna Fernanda Catarino) a viabilidade de implantação da Terapia de exposição Narrativa (NET) nos serviços públicos de saúde, melhora nos problemas de saúde mental e qualidade de vida (Serpeloni et al, 2021, em preparação), e grande aceitação por parte dos profissionais para incluir esse tipo de intervenção na rotina de atendimentos. Muitos profissionais relataram que agora tem ferramentas para identificar e acolher pessoas que passaram por violência e para realizar um tratamento eficaz aos que apresentam estresse traumático. O estudo piloto foi desenvolvido em uma parceria entre o Claves/Fiocruz, Secretaria Municipal de Saúde do Rio de Janeiro e a Universidade de Konstanz (Alemanha).
“Atualmente estamos desenvolvendo um estudo clínico controlado e randomizado sobre a eficácia da NET com pessoas que vivenciam violência contínua nos lugares onde moram”, completou.
“Espera-se que com o vídeo possamos contribuir com políticas públicas sobre os impactos da violência na saúde e sobre a importância da implantação de um tratamento baseado em evidências, como a Terapia de Exposição Narrativa (NET), a pessoas que apresentam sofrimento associado às experiências traumáticas” aspira ela.
“Espera-se, também, que com o engajamento de gestores e profissionais da saúde, cada vez mais pessoas possam ter acesso a atendimento de qualidade no SUS visando a promoção da saúde e o fim da violência”, anseia a pós-doutoranda.
Acesse o documentário no canal da ENSP no YouTube.
Curso online Séries temporais interrompidas: análise de intervenção em políticas de saúde
Segundo Débora Castanheira Pires, pós-doutoranda responsável pelo projeto, sob supervisão da professora Mônica Campos, o intento foi adaptar o curso "Séries Temporais Interrompidas na Análise de Intervenção em Políticas de Saúde", tradicionalmente oferecido de forma presencial, para uma metodologia on-line. “Mais do que apenas focar em aulas síncronas, nosso objetivo era oferecer aos alunos materiais interativos, que ajudassem no aprendizado”.
Apesar de nossa motivação prática ter sido encontrar uma forma de oferecer o conteúdo em tempos de pandemia, os resultados mostraram o potencial que a metodologia à distância pode ter e como os desafios podem levar a mudanças benéficas na forma tradicional como passamos o conteúdo, relatou Débora.
O curso contou, além das aulas síncronas com as professoras, com a produção de vídeos de conteúdo e tutoriais, além de exercícios interativos. Outro resultado bastante interessante, informou a pós-doutoranda, foi a possibilidade de disseminação do conhecimento pelo território brasileiro, uma vez que as aulas on-line deram a possibilidade de alunos de várias regiões participarem.
O material produzido pode ser acessado neste canal do YouTube.
Informação, comunicação e vigilância em Saúde do Trabalhador: banco de dados em saúde, trabalho e ambiente no Vale do Aço, Minas Gerais - Brasil
Bruno Souza Bechara Maxta, doutorando responsável pelo projeto, sob orientação dos professores Eduardo Stotz, José Pina e Jussara ngelo, explicou que ele é parte integrante da sua pesquisa de doutoramento intitulada Processo de produção e saúde: o enfrentamento do desgaste operário no Vale do Aço, Minas Gerais – Brasil.
Ambos compõem as iniciativas da Rede de Pesquisa em Saúde do Trabalhador, que integra trabalhadores, profissionais da saúde e pesquisadores do Cesteh/ENSP, da Fundacentro e da Universidade Federal de Minas Gerais.
Segundo o doutorando, a Rede assume o desenvolvimento de investigações sobre as situações de saúde dos trabalhadores na sua relação com o processo de produção e com as organizações de trabalhadores, para tanto, assumindo distintas formas de produção compartilhada do conhecimento, envolvemos as experiências desses trabalhadores e as ciências na luta pela saúde.
Neste projeto em particular, disse ele, “estudam com os operários organizados no Vale do Aço as bases de dados e os dados secundários que elas disponibilizam na sua relação com as questões assumidas pelo grupo de trabalho constituído para as investigações em saúde operária da região e não o contrário”. E ainda acrescentou que, “trabalham condições para a melhor organização dos dados sobre saúde e as possibilidades das suas atualizações com as organizações operárias”.
Desse estudo, a pesquisa identificou as fontes e selecionou os dados secundários mais relevantes para a construção de bancos de dados sobre o setor siderúrgico que pudessem ser utilizados como instrumentos descomplicados e de rápido manuseio entre os operários em qualquer tempo.
Assim, informou Bruno, os bancos de dados foram construídos a partir de planilhas digitais de fácil acesso, que permitem o carregamento intuitivo de dados e amplo compartilhamento para consulta simples e tratamento de dados por meio de softwares estatísticos. Os bancos de dados elaborados, com os demais documentos que subsidiam a sua construção e a apresentação dos dados contidos, estão armazenados em servidor virtual próprio e seguro. “Este servidor permite que os dados e os documentos selecionados pelo grupo de trabalho sejam compartilhados em tempo real com outros dois recursos utilizados no projeto, um software virtual para a sua apresentação estatística, e um sítio web para a consulta e divulgação ampla entre operários e sociedade em geral”. Essa estrutura é chamada de Sistema Web – banco de dados e sítio web sobre a situação da saúde operária no Vale do Aço.
Por meio deste sistema, elucidou Bruno, os operários podem acessar, rapidamente, os dados abertos e os gráficos que versam sobre a produção siderúrgica e o desempenho do setor no país e no estado de Minas Gerais, outros sobre a situação ambiental da região, sobre os vínculos de trabalho, remuneração, acidentes de trabalho, reabilitação profissional, e ainda sobre as doenças de notificações compulsórias e morbidade e mortalidade (em desenvolvimento) relacionadas ao setor siderúrgico em Minas Gerais. “Temos registrados, aproximadamente, 7 mil dados em suas respectivas variáveis, as quais possibilitam um conjunto significativo de medições quantitativas para a construção de informações sobre a relação saúde, trabalho e ambiente do setor siderúrgico”.
No tempo de execução do projeto foi possível ainda a elaboração dos primeiros indicadores sobre a saúde operária na sua relação com a produção siderúrgica. Em suma, relatou ele, os indicadores apontam que as manifestações - acidentes, adoecimentos e mortes - da saúde operária acompanham a intensidade do processo de produção das mercadorias-aço na região.
De acordo com o estudo, nos últimos anos, a produção siderúrgica na região tem avançado, ao passo que tem diminuído o número da sua força de trabalho ocupada no setor. “Tais situações, somadas às elevadas jornadas de trabalho nas plantas produtivas e os salários cada vez menores que reduz o poder de comprar as mercadorias necessárias à reprodução operária, o quadro de intensificação das condições de trabalho e saúde dos trabalhadores é expressivo”. E ainda, conforme relatou, dados preliminares indicam as taxas de exploração do trabalho siderúrgica da região, nos últimos anos, estão na ordem de 200% nos o que reforça a necessidade das condições de trabalho e das situações de saúde serem amplamente articuladas e enfrentadas na perspectiva de classe dos trabalhadores no âmbito da produção de conhecimento e das ações em saúde.
Por fim, Bruno disse que, entre agosto e setembro de 2021, o grupo de trabalho em saúde atualizará os dados das bases no Sistema Web – banco de dados e sítio web com apresentação de novas informações aos operários e a sociedade em geral.
Os arquivos XLS e a apresentação estatística descritiva e gráfica de alguns dados podem ser acessados pelo público no sitio web https://saudeoperaria.milharal.org/
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