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Ceensp debate inovações na Atenção à Saúde em HIV/Aids

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Publicado em:11/12/2020
Por Thamiris Carvalho 

O último Centro de Estudos da ENSP debateu as reconfigurações técnicas, sociais e políticas sobre o HIV/Aids. A atividade contou com a participação de diversos pesquisadores da Fiocruz que apresentaram suas pesquisas e refletiram a respeito dos resultados de pesquisas. Biomedicalização, avaliação da implementação do ImPrEP, projeto de implementação e o cuidado das pessoas vivendo com HIV/Aids foram os temas das pesquisas apresentadas.  

A mediação da mesa foi realizada pelo pesquisador do Instituto Oswaldo Cruz, Mauro Brigeiro. Em sua fala de abertura, o pesquisador ressaltou ser um tema que “congrega diversas unidades e laboratórios de pesquisa da Fiocruz” , cada uma construída por um ponto de vista e metodologias distintos, mas que permitem a reflexão sobre as reconfigurações técnicas, sociais e políticas de respostas no campo de HIV/Aids.

Biomedicalização da resposta à Aids: acesso de gays/HSH, mulheres trans e prostitutas à PEP e PrEP na região metropolitana do Rio de Janeiro.

A pesquisadora do Instituto Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz) Simone Monteiro apresentou a pesquisa mostrando as atuais respostas à Aids no Brasil e no mundo, como a utilização do tratamento como prevenção e a profilaxia pré-exposição, que adotados, segundo ela, reduziria o HIV na população e, consequentemente, interromperiam a cadeia de transmissão do vírus.  Para isso, a pesquisadora alerta que é necessário uma restruturação das práticas institucionais, dos serviços de saúde, além das reduções das intervenções comportamentais e estruturais. 

Para a pesquisadora, a biomedicalização tem gerado uma expansão do processo de medicalização que tem produzido novos avanços técnicos científicos. “Essas novas tecnologias redefinem as concepções e práticas médicas e condicionam novos modos de pensar as doenças e as necessidades de saúde”, explicou.

Quais as perspectivas sobre essas novas tecnologias? As visões dos profissionais de saúde sobre o PEP e PREP? Como as novas e antigas estratégias de prevenção se combinam? Essas e várias outras perguntas foram respondidas com um estudo sócio antropológico realizado pela pesquisadora, que tinha como objetivo a revisão da literatura acadêmica, análise documental, visitas aos serviços e entrevistas, além do mapeamento do material educativo a respeito do PEP e PrEP. O resultado mostrou a semelhança com outras revisões, como o número de estudos elevados sobre a PrEP em detrimento da PEP, e o número elevado de estudos para a população gay, comparados à mulher trans ou trabalhadores sexuais.

Outros dados foram mostrados pela pesquisadora, que apresentou os desafios e as preocupações diante da pesquisa. Para ela, não há dúvidas dos avanços biomédicos no cuidado e prevenção da Aids, mas lembrou de um ponto que considera principal, ou seja, o fato de isso não eliminar as causas da vulnerabilidade ao HIV.  O cenário político, com um discurso conservador e a pandemia da Covid-19 são outras preocupações que, segundo ela, precisam ser trabalhadas. 

Avaliação qualitativa da Implementação da PREP no Brasil

A pesquisa foi apresentada pela pesquisadora do Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas (INI/Fiocruz) Cristina Pimenta.  Contextualizando o estudo, a pesquisadora explicou a pesquisa como sendo um componente qualitativo de um estudo mais amplo realizado no Brasil, denominado ImPrEP, sobre a implementação dele no país para homens que tenham relações com outros homens e pessoas trânsgeneros. “É um projeto de demonstração no contexto da prevenção combinada no Brasil, México e Peru.”

O objetivo principal da pesquisa, segundo ela, é “explorar percepções e preocupações associadas à implementação da política de PrEP em Serviços Públicos de Saúde”.  Os resultados apresentados mostraram que os gestores de programas, profissionais de serviços de saúde e lideres da sociedade civil têm conhecimento prévio do que é a PrEP (Profilaxia Pré-Exposição de risco à infecção pelo HIV). Além disso, a pesquisa constatou um consenso narrativo entre os atores pares-chave sobre o avanço do PrEP, tanto na  prevenção combinada de HIV para a política de saúde pública como a prevenção do HIV sob o controle do indivíduo.  A oferta de profilaxia em serviços de HIV e os educadores de pares nos centros de ImPrEP também apareceram no resultado como facilitadores de acesso as populações, dentre outros.

No estudo, a pesquisadora também apresentou as barreiras identificadas. “A discriminação foi o principal obstáculo”, salientou, listando outras dificuldades como a falta de informação, que reduz o número de procura dos serviços e a dificuldade de entendimento sobre a PrEP devido à linguagem  técnica utilizada, entre outras. 

A pesquisa gerou resultados positivos sobre a visão e aceitabilidade do PrEP como ferramenta de prevenção. O estudo mostra também ser ‘essencial atitudes sem estigmas de profissionais de saúde e serviços de PrEP’, o que torna o ambiente favorável para a implementação, além da necessidade de capacitação de equipes de atendimento nas unidades de saúde baseadas em gênero. “A gente percebe a procura do serviço pelas populações se eles estiveram capacitados ou não”, explicou ela acerca de algumas das conclusões. 

A Hora é agora

A pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Marly Cruz apresentou o ‘A Hora é agora’, um projeto de implementação que faz parte de um acordo de cooperação entre a Fiocruz, o Centro de Prevenção e Controle de Doenças dos Estados Unidos (CDC) e o Ministério da Saúde, que traz como parcerias algumas Secretarias Municipais de Saúde. O projeto tem constituído um comitê gestor de caráter consultivo e deliberativo, o qual ajuda no acompanhamento e nas tomadas de decisão ao projeto. 

A pesquisadora explicou as fases do projeto, considerando o início em 2014 como intervenção, mas lançado como pesquisa em 2015. O principal objetivo era ampliar a testagem e possibilitar um tratamento mais precoce diante de algumas estratégias, como o consultório na rua, autoteste e a linkagem, um profissional que faz o acompanhamento do paciente. “Eles identificavam as dificuldades que o usuário teria até dar início ao tratamento.”
 A pesquisadora ressaltou que, na primeira fase, eles conseguiram fazer uma avaliação de todas as estratégias, além de uma avaliação econômica, o que ajudou nas ações futuras. “Por meio dessa avaliação, conseguimos reestruturar o projeto”, salientou. 

Já na segunda fase, segundo a pesquisadora, foram introduzidas as necessidades apresentadas.  “Em relação ao autotest, foi introduzido o armário digital, já que a farmácia popular acabou, o tratamento imediato passou a ser uma estratégia muito importante, a introdução de PEP e PeEP e a linkagem passaram a ter mais ênfase”, citou.

Com isso, a pesquisadora salientou a expansão dos projetos nos municípios nos quais eles foram empregados, além de ressaltar os pontos de inovação e fortalecimento que o projeto apresentou como a introdução de CD4, carga viral rápida e o armário digital. Além disso, as estratégias de monitoramento e comunicação, apresentadas pela pesquisadora, também ganharamu espaço na segunda fase. 
 
Os resultados apresentados mostraram, por exemplo, a necessidade de aperfeiçoamento do PrEP no município de Campo Grande, um dos locais onde a pesquisa foi empregada. Em relação à testagem, segundo ela, mais de 18 mil testes foram realizados nos municípios participantes. Além disso, mais de três mil autotestes foram solicitados nos três municípios, o que aumentou ainda mais neste momento de pandemia.

Como desafios, a pesquisadora, salientou a importância de entender melhor a necessidade dos usuários, a melhoria da abordagem de testagem para eles, além de garantir o acesso e a redução de barreiras para as mulheres trans e aprimorar a busca por abandonos de tratamentos. 

O cuidado às pessoas vivendo com HIV/Aids na Rede de Atenção à Saúde

O pesquisador do Departamento de Administração e Planejamento da Saúde (Daps/ENSP) Eduardo Melo mostrou os resultados preliminares da pesquisa. O pesquisador, no início de sua fala, fez um panorama geral da atenção primária especializada em HIV/Aids, como a estratégia global 90/90/90, o cuidado de pessoas vivendo com o vírus, a introdução de testes rápidos, no ano de 2012, dentre outras. “Toda essa estratégia vem entorno de achar que a atenção primária teria o potencial para ampliar o acesso das pessoas pela capilaridade que a saúde da família tem na sociedade brasileira”, ressaltou.

Segundo o pesquisador, o principal interesse da pesquisa era a análise de como a atenção primária acompanhava esses portadores de HIV/Aids e também nos fluxos dos usuários de HIV dentro da rede, entre a atenção primária para a atenção especializada. 

O pesquisador apresentou dois eixos de análise utilizados na pesquisa, o processo de trabalho e cuidado às Pessoa vivendo com HIV/Aids (PVHA) na atenção primária e a interface entre a atenção primária e atenção especializada e caminhos dos usuários. Ao todo, foram utilizados, na pesquisa, sete eixos de análise.

Um dos pontos importantes do trabalho, salientou o pesquisador, foi  constatação de um grande aumento de pessoas com HIV que são acompanhadas nas APS. “Essa agenda teve um grau alto de adesão.”  A centralidade do médico de família, ofertas de cuidados foram alguns outros processo de trabalho e cuidados às PVHa na APS apresentados pelo pesquisador. 

Já na interface entre a APS e atenção primária, o projeto identificou o desconhecimento e hesitação de profissionais da atenção especializada sobre APS e sua capacidade de cuidar das PVHA, a inexistência de canais formais e informais de diálogo entre as equipes também foi percebido, segundo o pesquisador. 

Como os desafios e as necessidades identificadas o pesquisador salientou os âmbitos em que seriam importantes nos cuidados a PVHA, como o manejo clínico e formação de profissionais, como também os desafios morais diante da sexualidade e estigma, o ético, como o sigilo e confidencialidade, organizacional e politico. Além disso, enxergar o cuidado às PVHA como uma singularização, no qual podem ganhar as PVHA e o SUS, e não como um privilégio. 


Assista a atividade e todas as pesquisas no Canal da ENSP no Youtube



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