Redes de saúde têm pesquisador como mediador
“Os pesquisadores atuam como um dos elementos da rede e, também, como mediadores, interligando diferentes interesses e pontos de vista dos envolvidos nos programas de pesquisa e na intervenção, interessados na avaliação, por meio da disseminação e facilitação da apreensão e utilização dos produtos e resultados dos estudos.” A análise da pesquisadora Ana Cláudia Figueiró, do Departamento de Endemias Samuel Pessoa (Densp/ENSP), advém da discussão sobre redes de saúde, um dos temas estudados por diversos grupos de pesquisa e departamentos da Escola.Conforme ressaltou a pesquisadora, é importante apontar os possíveis usos e influência do conhecimento produzido, especificando o campo da avaliação em saúde. “É possível observar, ao acompanhar o modo de produção do conhecimento, que alguns processos de pesquisa avaliativa são mais efetivos no apoio à melhoria da gestão de programas, de práticas de saúde, da qualidade dos serviços, objetivos frequentes da avaliação em saúde”, acrescentou.
Para Ana Cláudia, os fatores favoráveis para alcançar os objetivos pretendidos dos estudos avaliativos são aqueles produzidos com a participação das pessoas interessadas e envolvidas nos programas e serviços avaliados. Tais fatores investem em processos formativos no decorrer do estudo e contam com legitimação pelos tomadores de decisão, assim como a capacidade técnica e comunicativa do pesquisador.
A pesquisadora se utiliza da teoria do ator-rede (TAR) como referencial teórico para os estudos de avaliação em saúde. “Essa teoria é uma ferramenta interessante para análise de políticas, programas e gestão de saúde porque pode contribuir para a compreensão do funcionamento das redes que se constituem na implementação de intervenções, descrevendo os muitos elementos que se conectam na produção de bens e serviços de saúde”, disse.A TAR é definida pelo filósofo, sociólogo e historiador das ciências Bruno Latour como um método que permite descrever e compreender como se produzem, expandem e estabilizam os fatos, sejam conhecimentos, bens ou inovações. Seu propósito é descrever a formação e o funcionamento das redes sociotécnicas, que são tecidas a partir da identificação e alinhamento de interesses, pontos de vistas, valores dos atuantes na rede, que vão sendo renegociados na produção dos fatos.
"Intervenções de saúde podem ser compreendidas como sistemas de ação que operam por meio redes sociotécnica"
Segundo Ana Cláudia, as intervenções de saúde podem ser compreendidas como sistemas de ação que operam por meio redes sociotécnicas, de modo dinâmico e flexível, na produção de suas ações sociais. “Elas buscam, em suas interações em rede, conectar mundos inicialmente distintos, negociando interesses e reconfigurando identidades e relações em torno de sentidos e significados que vão sendo construídos para dar sustentabilidade às suas práticas.” Nesse processo coletivo, as redes operam por traduções (translações) provisórias, que elaboram, fazem circular e estabelecem conhecimentos, competências e artefatos técnicos necessários para que as proposições das intervenções sejam apropriadas localmente.
Latour, explica a pesquisadora, define como atuante (ou actante) aquele e aquilo que participa da produção dos fatos em sua atuação na rede sociotécnica. Essas entidades podem se referir a pessoas atuando como porta-vozes de um grupo, ou interesse, assim como um tipo de conhecimento que se incorpora, um equipamento ou instrumento que permite desvendar, responder alguma necessidade da situação em discussão, percebida como uma controvérsia que provoca a mobilização da rede.
“Nem todos os envolvidos são identificados como atuante, pois essa identidade é produzida na própria dinâmica de ação da rede. A noção de rede remete a fluxos, circulações e alianças, nas quais os atuantes interferem e sofrem interferências constantes, produzindo os fatos a partir das interações que estabelecem em rede, promovendo modificações e aprendizados, e expandindo-a à medida que outros aliados são requeridos para avançar na direção da estabilização dos novos eventos”, complementou.
A discussão sobre esse tema fez parte das atividades do Centro de Estudos do Laboratório de Avaliação de Situações Endêmicas Regionais (Laser/Densp), realizado em 25/4.
Sobre Ana Cláudia Figueiró
Ana Cláudia Figueiró é graduada em Nutrição pela Universidade de Brasília, mestre em Nutrição pela Universidade Federal de Pernambuco e doutora em Saúde Pública pelo Centro de Pesquisa Aggeu Magalhães (CPqAM/Fiocruz), com estágio de doutoramento na Universidade de Montréal. Atualmente, é pesquisadora na ENSP e colaboradora do Grupo de Estudos de Avaliação em Saúde do Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (Geas/Imip). Tem experiência na área de saúde coletiva, com ênfase em avaliação em saúde, atuando principalmente em avaliação de programas e serviços de saúde, usos e influências da avaliação e formação em avaliação.
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