Pesquisadora da ENSP e coordenadora do Programa Biodiversidade & Saúde da Fiocruz, Marcia Chame é uma das organizadoras da 1ª Conferência Brasileira em Saúde Silvestre e Humana, que acontece de 24 a 28 de outubro no Rio de Janeiro. O encontro tem o objetivo de desenvolver em todos os participantes a capacidade de buscar modelos que permitam predizer agravos à saúde humana e dos animais silvestres ou domésticos. É importante lembrar sempre que agentes infecciosos circulam entre diferentes espécies. Em abril deste ano, a pesquisadora concedeu entrevista ao Informe ENSP e comentou a criação do Centro de Informação em Saúde Silvestre (Ciss). Agora, em entrevista à jornalista Marina Lemle, da Vice-Presidência de Ambiente, Atenção e Promoção da Saúde, Marcia comenta os objetivos da 1ª Conferência. Confira.
O problema das doenças advindas da biodiversidade é premente no mundo todo
Publicado em 1/10/2012
Marina Lemle
Pesquisadores estrangeiros e brasileiros que estudam a relação entre alterações ambientais, comportamento das espécies e a emergência de doenças terão a chance de trocar experiências durante a 1a Conferência Brasileira em Saúde Silvestre e Humana, que será realizada de 24 a 26 de outubro no Rio Othon Palace, em Copacabana, Rio de Janeiro.
A coordenadora do Programa Biodiversidade & Saúde da Fiocruz, Marcia Chame , espera que a Conferência semeie a criação uma rede participativa formada por profissionais de diferentes áreas que contribuirão para o desenvolvimento de modelos de previsão que viabilizem o controle prévio de situações de desequilíbrio, antes que as doenças se manifestem.
Segundo Marcia, o evento é também uma oportunidade para se discutir a inserção de questões da biodiversidade nas políticas públicas. Nesta entrevista, a pesquisadora explica a importância do tema da conferência, o seu estado da arte e apresenta alguns dos palestrantes e seus estudos.
Saúde Silvestre e Humana é uma área nova? Qual o seu papel?

É nova no sentido de que agora começamos a observar a emergência das doenças, mas na verdade não é nova - ela nos acompanha desde a pré-história, desde a evolução do homem, que usa o mesmo ambiente dos animais. Como usamos o mesmo espaço, compartilhamos pelo menos 58% dos patógenos com outros animais. Por isso, teoricamente não deveria ser uma área nova, mas ela hoje ganha uma expressão muito grande porque os sistemas naturais estão sendo devastados numa velocidade enorme e os ambientes naturais que sobram acabam sendo muito simplificados, de forma que a extinção de espécies, principalmente os predadores de topo, gera uma desestrutura nas comunidades biológicas, que acaba privilegiando espécies generalistas, de grande capacidade de adaptação a alterações ambientais, e que acabam se aproximando do homem. Muitas dessas espécies são boas mantenedoras de patógenos, e com isso um ciclo que era naturalmente silvestre e não tinha implicação nenhuma sobre a saúde humana avança sobre as populações humanas. Ou melhor, nós avançamos sobre um ciclo que naturalmente não seria nosso.
Como a Conferência contribuirá para aproximar o conhecimento científico da formulação de políticas públicas em saúde?
Esse é um projeto totalmente envolvido com a busca e o objetivo de que a biodiversidade seja inserida na política pública brasileira. Ele é apoiado pelo Fundo Ambiental Global (GEF), da Convenção da Diversidade Biológica (CDB), destinado a apoiar projetos de países para que consigam atingir as metas estabelecidas em 2010 - e que ninguém cumpriu. Agora temos um novo conjunto até 2020. O primeiro projeto, PROBIO I, coordenado pelo Ministério do Meio Ambiente, foi muito destinado para que avançássemos em deficiências na área ambiental. Se fez um esforço enorme para fazer a avaliação dos biomas brasileiros, planos de manejo, unidades de conservação, estruturar conhecimentos que não tínhamos de forma consistente. Avançamos muito, mas não adianta ter um conhecimento muito especializado se as coisas não caminham juntas, num processo de planejamento paralelo. Vemos um descompasso entre as legislações ambientais interessantes que o Brasil tem, apesar do novo Código Florestal, que retrocede avanços importantes que o país teve, e a política de desenvolvimento, que não incorpora os conhecimentos que a ciência traz, nas suas práticas. Nunca vamos avançar a respeito da perda da diversidade se não fizermos um esforço para que esse tema seja transversalizado – é essa a palavra que temos usado – dentro dos setores. O Planejamento tem que entender isso, a Saúde, a Agricultura. Por isso, esse é um projeto de múltiplos parceiros, incorporando, além do MMA, a Fiocruz, o Jardim Botânico, Embrapa, Ministério da Ciência e Tecnologia, Ministério da Agricultura e outros órgãos. Na construção desse projeto, o dinheiro é para fazer uma coisa nova, é para incrementar e não fazer somente o que é a nossa missão e que a gente já faz.
Já existem muitos estudos na área?
Não são muitos exemplos ainda, porque estes estudos são muito complexos, de longa duração, o que é contraditório com a ciência hoje, que quer resultados e publicações rápidas. O trabalho de campo em grandes extensões requer um esforço enorme, porque há dificuldades técnicas, como por exemplo trazer uma amostra do campo para o laboratório. Como vai se trazer uma amostra de sangue resfriada de um lugar a oito dias de barco na Amazônia, sem energia elétrica? Vamos ter que enfrentar esse tipo de situação e trabalhar no desenvolvimento de tecnologias de acondicionamento de amostras, de diagnósticos rápidos e testes robustos, que suportem muito calor. Estes estudos requerem muito mais financiamento para deslocamentos de campo, diárias, combustível, carro, coisas que normalmente não conseguimos nos projetos para a área de saúde. Precisamos dos grandes equipamentos sofisticados de laboratórios moleculares, mas também de muito trabalho de campo.
Poderia dar exemplos de doenças emergentes e reemergentes advindas da biodiversidade?
O primeiro trabalho que mostrou isso claramente foi do americano Richard Ostfeld da Universidade da California, que trabalha com a doença de Lyme, que não existe no Brasil e é transmitida por carrapatos. Ele estudou como a doença se comportava em relação à biodiversidade dos hospedeiros e percebeu que quanto maior a biodiversidade do ambiente, menor era a transmissão, porque a quantidade de espécies de hospedeiros más e boas transmissoras da bactéria se equilibra criando um efeito de diluição da doença. Desta forma, estabeleceu concretamente o efeito e o alto poder de diluição da biodiversidade na transmissão das doenças infecciosas.
Aqui na Fiocruz temos o grupo da Dra. Ana Maria Jansen trabalhando com um modelo sobre a emergência da doença de Chagas na Amazônia e obtendo resultados muito bonitos. Ela faz a mesma correlação. Nas matas íntegras encontramos o barbeiro e oTrypanosoma cruzi circulando em inúmeras espécies, mas o ciclo é silvestre. À medida que a mata começa a ser derrubada para aumentar e favorecer a coleta dos frutos dos açaizais, os animais predadores e de médio porte somem, favorecendo a ocorrência de gambás e outros pequenos roedores que são bons mantenedores do Trypanosoma. A instalação de habitações humanas nos açaizais aproxima estas espécies, que se adaptam bem a ambientes alterados, do homem e de seus animais domésticos, especialmente porcos e cachorros. Essas espécies acabam assumindo o papel das espécies silvestres, começando um ciclo de Doença de Chagas completamente novo num lugar onde não existia.
Faço um trabalho com um mestrando em que acompanhamos as populações de raposas no Nordeste do Brasil. Ao longo dos últimos 20 anos as raposas têm se aproximado cada vez mais das áreas antropizadas. Em algumas áreas, as populações delas estão aumentando porque as onças e outros predadores já não existem mais, então essas populações deixam de ser controladas e temos observado um número crescente de helmintos (vermes) nessa espécie. Nossa hipótese é que como os ambientes naturais das raposas estão sendo impactados, e a espécie tem grande capacidade de adaptação, ela acaba atraída para a borda das pequenas cidades, onde podem encontrar alimento no lixo nas criações de galinha e manter contato com cães domésticos e pessoas, criando fluxo de parasitoses entre as espécies envolvidas. A raposa não tem culpa de nada, ela está respondendo a todo impacto que geramos sobre o ambiente. Estamos vendo isso acontecer no semiárido agora de uma forma impressionante, numa região que compreende o Piauí, Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte.
Que palestrantes participarão da Conferência e que temas trarão para discussão?
Uma pessoa muito interessante é o Michael Begon. Praticamente todo mundo estudou no livro de ecologia que ele escreveu com outros dois autores, que é a grande base da formação nesta área. Ele vem trabalhando há alguns anos com a questão do papel dos hospedeiros na dinâmica das doenças e como a diluição, amplificação e complementaridade da diversidade dos hospedeiros pode levar à ocorrência de doenças.
Também virá o Hamish McCallum, da Tansmânia, que trabalha com ecologia quantitativa e modelagem de transmissão. Se quisermos avançar nisso, teremos que trabalhar sobre os modelos quantitativos, matemáticos, e isso é um universo totalmente diferente para nós, da biologia.
A Marcela Uhart, uma argentina que trabalha na Wildlife Conservation Society, se dedica a um grande projeto mundial chamado One World, One Health (Um mundo, uma saúde), que depois foi abraçado pela Organização Mundial de Saúde. Não existe saúde humana se não existir saúde animal e isso significa os animais de produção e os animais silvestres. Eles têm trabalhos no mundo todo e ela vem nos mostrar uma experiência na Bolívia muito interessante.
Temos o professor James Childs, que vem dar um curso de um dia sobre os processos de emergência de doenças, conceitos e exemplos no mundo, e ainda o grupo de brasileiros, entre eles a Claudia Codeço, uma pesquisadora da Fiocruz que trabalha com modelagem de risco de novas doenças em área urbana, como a febre amarela urbana, importante para o Brasil; a Maria Virgína Petry, da Universidade do Vale do Rio dos Sinos, no Rio Grande do Sul, que tem um projeto de longa data de monitoramento das aves migratórias da Antártica e a influenza, que evidencia uma relação muito interessante da saúde silvestre que é a dos fluxos de migração de espécies e dispersão de vírus; e o Eduardo Massad, da USP, que trabalha com quantificadores de risco para doenças.
A ideia não é ter muita gente falando, mas já que vamos trazer pessoas de tão longe e com tanta experiência, que possamos aproveitar bastante cada um. Toda a Conferência terá tradução simultânea.
O que espera com a Conferência?
O problema das doenças advindas da biodiversidade é premente para o mundo inteiro. Vemos em congressos internacionais que as nossas dificuldades são as mesmas dos outros países, desenvolvidos ou não. Estão todos na mesma busca de modelos de previsão, para conseguir correlacionar as alterações ambientais com o comportamento das espécies – vetores, hospedeiros, patógenos. Queremos juntar toda nossa excelência do diagnóstico na saúde, que é o que fazemos ao longo dos nossos mais de 100 anos, com a criação de modelos de previsão para trabalhar no controle antes que as coisas aconteçam. Juntar conhecimentos de áreas distintas é uma questão difícil no Brasil e no mundo. Quando conseguimos fazer isso, criamos novos conhecimentos. E dominar plenamente novos conhecimentos não é uma tarefa simples. Temos algumas pesquisas trabalhando com isso no Brasil, inclusive na Fiocruz, mas precisamos avançar muito mais. A conferência é uma estratégia para aproveitar a oportunidade desse financiamento e trazer a importância da biodiversidade para as discussões da saúde e de reunir experiências para a formação do Centro de Informação em Saúde Silvestre. Para isso precisamos nos capacitar fortemente e trazer pesquisadores de fora, que já vem enfrentando novos desafios, com novas ferramentas e abordagens, para que a gente discuta, aprenda e veja outras realidades. Também devemos motivar os pesquisadores brasileiros a entrar nesse mundo, assim como estimular as agências de fomento e cursos de pós-graduação a formar pessoas com essas especialidades, porque são essas pessoas que vamos precisar para o futuro.
Qual o objetivo do Centro de Informação em Saúde Silvestre?
Estamos apostando que esse centro seja construído por redes participativas. O objetivo é que a informação venha de muitos lugares. O centro funcionará por meio da informação e computação cidadã, na qual as pessoas são parceiras no processo de construção do conhecimento. Esperamos que a Conferência seja uma semente para que consigamos reunir pessoas. Por isso vamos ter dois dias de oficina curta com pessoas do serviço, da pesquisa, da área ambiental, da área tecnológica, da agricultura, da saúde, que identificamos como chave para aglutinar e fazer com que a rede se desenvolva.