ENSP recebe especialista italiana em história ambiental
O Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP) recebeu, em 24 de setembro, a pesquisadora Stefania Barca, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, Portugal, que proferiu a palestra Trabalho e justiça ambiental: uma análise comparada na perspectiva da ecologia política e da história ambiental, como parte da disciplina Território e Ecologia Política da pós-graduação do Cesteh. A pesquisadora analisou o tema sob três aspectos: a paisagem como trabalho humano, o ambiente de trabalho e a comunidade local nas questões ambientais que surgem das atividades produtivas e o ambientalismo/ativismo dos trabalhadores.
Ao apresentar a palestrante italiana, doutora em História Econômica pela Universidade de Bari, na Itália, o pesquisador da ENSP Marcelo Firpo destacou a influência da Itália na reforma sanitária brasileira da década de 1980.
Stefania Barca iniciou a palestra destacando o tema sob o ponto de vista teórico. Segundo ela, de acordo com a concepção do materialismo dialético, o trabalho é parte da natureza. “O capital organiza as experiências da natureza pelas experiências do trabalho.” Essa ideia foi reelaborada, disse ela, pelos sociólogos e geógrafos culturais da Escola de Frankfurt, durante os anos de 1930 a 1950, que estudaram o ecomarxismo por meio de uma crítica ecológica ao capitalismo.
A pesquisadora estudou os teóricos R. Williams sobre a crítica da ideia romântica de natureza própria da era industrial; J. O’Connor sobre o trabalho e a natureza considerados como mercadorias, o papel importante do trabalho na história do ambiente; e R. White a respeito da natureza como lugar para viver e trabalhar.
Sobre a paisagem como trabalho humano, a pesquisadora refere-se à paisagem agrária italiana, cujo conhecimento observado pelos agricultores considera as relações de trabalho, a conquista do solo pela disciplina e mão de obra abundante e barata; além da ecologia do petróleo sobre a extração no México e a mediação das relações de propriedade, tecnologia, mercado e sistema financeiro. “O importante não é o trabalho por si só, mas a função social dele e sua relação com a produção e a sociedade.”
Quanto ao ambiente de trabalho e à comunidade local, Stefania citou o exemplo da mineração em Appalachia, Virgínia (EUA), onde as complexidades e contradições da relação trabalho/meio ambiente/comunidade local surgiram quando se começou a fazer mineração de superfície, causando riscos para a saúde dos trabalhadores e suas famílias.
E, finalmente, sobre o tema ambientalismo e classe trabalhadora, Stefania destacou a importância do movimento italiano Medicina Democrática, fundado nos anos de 1970, que visou criar uma corporação de trabalhadores e garantir espaço a grupos de agregação espontânea e autônoma.
Para Stefania, é aguardada uma transição justa para um modelo que leve em conta a compensação dos rendimentos, prejudicados por processos de reconversão produtiva ou pelas políticas ambientais, que concilie objetivos humanos com interesses econômicos. De acordo com ela, discurso da transição justa não tem aparecido nem nas áreas política e econômica, nem nos meios acadêmicos, nem na mídia.
Stefania Barca é pesquisadora doutora do Centro de Estudos Sociais/Universidade de Coimbra, onde é uma das coordenadoras do Núcleo de Estudos sobre Politicas Sociais, Trabalho e Desigualdades e do programa de doutoramento em Democracia no século 21. Obteve seu doutoramento em História Econômica pela Universidade de Bari (Itália) em 1997. Trabalhou em várias universidades italianas, onde lecionou História Econômica e Ambiental. De 2005 a 2006, foi pesquisadora visitante no âmbito do Programa de Estudos Agrários da Universidade de Yale, e de 2006 a 2008 fez pós-doutorado Ciriacy Wantrup na Universidade da Califórnia, em Berkeley. Publicou uma série de artigos em revistas italianas e internacionais e três livros. Sua última publicação, Enclosing Water: Nature and Political Economy in a Mediterranean Valley (Cambridge, UK: White Horse Press, 2010), recebeu o prêmio Turku Prize como melhor livro em história ambiental europeia. Seu novo projeto de investigação trata de risco industrial e a relação entre trabalho e ambiente numa perspectiva transnacional. Foi recentemente eleita vice-presidente da Sociedade Europeia de História Ambiental (Eseh).
Seções Relacionadas:
Sessões Científicas
Sessões Científicas
Nenhum comentário para: ENSP recebe especialista italiana em história ambiental
Comente essa matéria:
Utilize o formulário abaixo para se logar.



