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Rute Sales, do Movimento Moleque, denuncia pandemia de descaso das políticas públicas

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Publicado em:19/11/2020
Por Ana Cláudia Perez 

A entrevista da ativista Rute Sales à Radis aconteceu menos de um mês depois dos assassinatos de dois jovens no Rio de Janeiro: João Pedro, de 14 anos, baleado pela polícia dentro da casa dos pais, no Complexo do Salgueiro, e João Vitor, 18, atingido por um tiro enquanto realizava a distribuição de cestas básicas na Cidade de Deus. “Quando você mata um filho, mata também uma mãe. É como se acontecesse com cada uma de nós”, diz Rute. Naquela semana, ela estava a mil, dividindo-se entre as atividades para denunciar as operações policiais que continuam acontecendo nas favelas do Rio de Janeiro — a despeito de uma liminar do Supremo Tribunal Federal (STF) proibir que ocorram durante a pandemia — e as articulações para garantir que mães com filhos no sistema prisional possam visitá-los nos presídios —direito negado pela Justiça desde a chegada do novo coronavírus no Brasil.

Rute Sales é uma aguerrida militante do movimento de mães cujos filhos foram mortos pelo Estado ou entraram no sistema carcerário. Quando fala da atual situação das famílias de pessoas em privação de liberdade, ela faz questão de demonstrar por que a pandemia no cárcere é um verdadeiro genocídio. “Se fora dos muros das prisões nós não estamos encontrando um hospital para nos internar, se não estamos tendo acesso a respiradores, se a maioria de nós está morrendo, você imagina dentro do sistema prisional”. Em tempos de covid-19, ela diz, parece que as políticas públicas todas “desapareceram”. “A única coisa que a gente ouviu do governo, e com ressalvas, foi o pedido de quarentena. Mas não teve nenhum plano que assegurasse proteção e garantia de direitos fundamentais”.

Uma das fundadoras da ONG Movimento Moleque, a própria Rute conhece de perto a realidade do sistema penal brasileiro. Quando seu filho se envolveu em um delito por conta de uma briga de rua motivada por uma camisa do Flamengo, ela viveu os piores dias de sua vida. Aos 14 anos, o garoto foi parar em uma unidade socioeducativa. “A primeira coisa que acontece a um jovem, preto, de favela, quando chega em lugar como aquele, é a perda da identidade. Ele vira um número”. Sem poder fazer muita coisa, viu o filho quase morrer depois de apanhar de cassetete durante uma rebelião. “Nós, as mães, ficamos muito sozinhas com a nossa dor. E ainda somos taxadas de culpadas”. Da experiência terrível, conseguiu tirar forças para reunir mães em torno de uma causa comum: a defesa dos direitos de adolescentes presos em unidades socioeducativas e de seus familiares. “Nosso sistema carcerário, lotado com uma massa de gente preta, é perverso e racista”.

A carioca integra o movimento “Parem de nos matar” — contra o massacre dos moradores de favela. “A única política pública que chega para as periferias é o braço armado do Estado. Invadem nossas casas, matam nossos filhos, entram sem responsabilidade nas comunidades e atingem pessoas que estão minimamente tentando se proteger de um vírus”, resume. Para ela, o país está vivendo “uma pandemia da violência” e é inadmissível que, nesse momento, seja negado às famílias o direito à visita e a informações sobre o estado de saúde dos parentes presos. “Em épocas normais, somos nós, os familiares, que levamos do sabonete à comida para os presídios. Como eles estão sobrevivendo agora?” É o que pergunta nesta conversa com Radis, antes de afirmar: “O racismo nos mata e nos encarcera”.

Você já disse que a favela morre de várias formas e que “o problema não é só a pandemia da doença, mas a pandemia do descaso das políticas públicas”. Queria começar falando sobre isso: como a pandemia de covid-19 vem afetando a vida das periferias dos moradores de favelas?

Nossa população das favelas e das periferias já sofre com a falta de políticas públicas e de assistência há décadas. A gente atravessou um tempo em que houve promoção de políticas de inclusão social e racial — que a gente conquistou com muita luta —, mas agora estamos sofrendo um grande retrocesso. Parece que a gente está andando para trás e vai ter que reconquistar tudo. A pandemia só veio piorar tudo isso. Parece que as políticas públicas desapareceram. A única coisa que a gente ouviu do governo, e com ressalvas, foi o pedido de quarentena. Mas não teve nenhum plano que assegurasse proteção e garantia de direitos fundamentais a essas famílias pobres, sem estrutura. A única política pública que chega para nós, nas periferias, é o braço armado do Estado. Invadem nossas casas, matam nossos filhos, entram sem responsabilidade nas comunidades e atingem pessoas que estão tentando se proteger de um vírus. Estamos vivendo uma pandemia da violência. Fica muito difícil quando a gente vê um Estado totalmente omisso em todas as políticas, mas que não é omisso quando vem nos matar. A gente não tem acesso à saúde. A gente não tem acesso à educação —porque é aquela história: ensino à distância não funciona, é para uma outa estrutura, uma outra sociedade, que não a das nossas comunidades onde a gente ainda não tem acesso a um computador, enfim. São as várias formas de pandemia.

Como a população vem se organizando para responder a esse estado de coisas?

A gente lutou muito nas comunidades para que a covid não chegasse até elas. Mas infelizmente chegou. E, quando chega até elas, entre escolher quem morre e quem vive, nós somos os escolhidos para morrer. A pandemia, para nós, é muito maior do que o que está colocado para uma sociedade privilegiada. A pandemia, para nós, é o caso de morrer ou viver. Ela chega e a gente não tem qualquer estrutura para se defender dela. Todas as ações para ter minimamente direito à alimentação, à segurança alimentar, foram feitas por nós mesmo, por meio de ações solidárias para atender a nosso povo. Agora a gente está pedindo, inclusive, para que não tenha ações policiais durante esse período da pandemia. Porque não é possível que a gente tenha que continuar morrendo. Que, além de morrer pela questão de falta de acesso à saúde, de falta de acesso aos respiradores que foram comprados mas não chegam — e, para nós, não vão chegar mesmo —, que a gente ainda tenha que correr da bala do Estado. Tem até um parecer proibindo as operações policiais nas favelas do Rio durante o período da pandemia. E mesmo assim eles continuam entrando nas favelas: já entraram no Alemão, na Maré, na Rocinha, em uma comunidade em Niterói. Ninguém está conseguindo fazer essa gestão entender que é um momento extremamente delicado, em que a população precisa se defender de uma doença, de uma coisa que a gente não vê, e ainda vai ter que se defender de bala. Então, a gente começa a entender que é uma política para matar o povo pobre, matar o povo preto. Só pode ser. Parece que é isso.

Você já teve um filho que passou por instituições socioeducativas. Que lembranças tem do período?

Sim, eu passei pelo sistema socioeducativo com o meu filho. Na época, eu era muito nova, ele tinha por volta de 14 anos e foi um momento muito difícil. Foi a primeira vez que o meu filho se envolveu em um delito — por conta de uma blusa do Flamengo, que eles tomaram de um menino. Ele foi direto para o sistema socioeducativo. Me lembro que tentei dialogar com o juiz para trazer ele para casa, mas não me foi permitido. E o que a gente sabe é que o sistema socioeducativo não tem nada de socioeducativo. A primeira coisa que acontece a um jovem, preto, de favela, quando chega em um lugar como aquele, é a perda da identidade. Ele vira um número. Quando cheguei lá, meu filho era “o número tal”. É um tratamento totalmente desumano. Dificilmente, um jovem sai dali para uma vida bacana. Não tem como. O próprio Estado transforma ele num número, numa facção. Então, é uma experiência de muita dor, racismo, discriminação. De muito machismo, inclusive, porque a culpada ali é sempre a mãe. Nós, as mães, ficamos muito sozinhas com a nossa dor e ainda somos taxadas de culpadas. Eles são muito covardes. É muita humilhação que uma mãe sofre na entrada das unidades para poder conseguir ter acesso a seu filho. Eles nos julgam e é cruel a forma de nos revistar para entrar, o desrespeito na hora de ver o que levamos de alimento para nossos filhos. A gente sai destruída.

O que ficou dessa experiência?

No meu tempo, aproveitei para organizar as mães, organizei a associação de mães, depois organizei o Movimento Moleque. E a lembrança que eu trago é essa, de eu ter buscado forças onde não tinha para tentar interagir. Mesmo assim, consegui ir trabalhando com outras mães, nos organizamos para dialogar com a instituição, com os agentes, com a direção, para ver se minimamente a gente transformava a passagem de nossos filhos lá num caminho diferente. Mas eram pouquíssimos os avanços em um Estado que não quer avanços. Aquele sistema ali é um sistema perverso, racista, e que quer justamente transformar os nossos filhos naquilo mesmo, não tem outra finalidade.

Pode nos contar alguma situação marcante daquele momento?

Uma situação marcante foi uma rebelião — que, depois, meu filho me narrou que não foi bem uma rebelião, porque tinham colocado eles pelados, apagaram a luz e bateram muito neles com um cassetete, então, eles começaram a quebrar tudo, porque estavam recebendo muita pancada dos agentes. Quando cheguei lá, achei que ia encontrar meu filho morto de tanta destruição — nesse tempo teve menino morto dentro da unidade. Então, isso me fez sofrer e me marcou muito. Fiquei com muito medo, queria retirar o meu filho dali de qualquer jeito. Era um grande sofrimento.

Durante a pandemia de covid-19, estão proibidas as visitas. Você tem acompanhado a luta das mães que hoje estão com filhos detidos, vivendo a angústia da falta de informação? Quais são as maiores queixas que elas têm em relação a esse momento?

Se fora dos muros nós não estamos encontrando um hospital para nos internar, se não temos acesso a respiradores, se a maioria de nós está morrendo, você imagina dentro do sistema prisional, imagina a população encarcerada. Fecharam as portas e a gente não sabe quais são as notícias. A última coisa que a gente soube foi que estavam querendo colocar contêiner dentro dos presídios para separar os presos em quarentena. Imagine que lá já tem bastante tuberculose e uma série de outras doenças. A covid-19 é só mais uma. Na realidade, nós já temos um sistema falido e não é de hoje. São muitos os presos que morrem todos os dias dentro do presídio por doença, por falta de atendimento médico, por falta de remédio. Então, durante a pandemia as mães estão desesperadas. Por conta de aquele ser um lugar fechado, insalubre, sem nenhuma higiene. Imagina se preso vai ter onde lavar mão. É um desespero para essa mãe que está sem direito à visita, sem informação, sem saber como está o seu filho ou o seu esposo ou o seu irmão. E o que eu penso é: se o meu filho estivesse lá, eu estaria nessa mesma situação. Quando você mata um filho, mata também uma mãe. É como se acontecesse com cada uma de nós. Por isso eu me coloco no lugar dessa família e fico agoniada e sofro também.

O que fazer?

Então, é difícil. O que fazer, né? Porque a gente sabe que essa história não é só durante a pandemia. Ela é sempre. É um sistema falido, um sistema perverso, um sistema racista que encarcera o nosso povo preto. É um sistema que, na verdade, não cumpre com o seu papel de garantir a esse preso os direitos fundamentais. Esse Estado nunca garantiu e não garante. Como o Estado pode encarcerar se ele não cumpre os direitos fundamentais desse preso? Esse seria, inclusive, um motivo para a gente pedir o desencarceramento. E a única ação que eu vi acontecer fomos nós, as próprias mães, familiares, fazer uma campanha solidária para conseguir minimamente levar o material de higiene, sabonete, material de limpeza, para os familiares na prisão. Acho que, cada vez mais, temos que nos unir para fortalecer os movimentos de mães, unificar esses movimentos. Precisamos nos juntar na luta pelo desencarceramento e provocar o Ministério Público, os movimentos de direitos humanos nacionais e internacionais. Precisamos criar programas de inclusão social que de fato aconteçam. Para que o nosso povo saia dessa condição de encarceramento, de serem caçados nas favelas e assassinados. Precisamos trabalhar para empoderar o povo preto. Nosso sistema carcerário, lotado com uma massa de gente preta, é perverso e racista. Temos que pôr um fim nesse racismo que nos mata e nos encarcera, e que acaba com nossos sonhos.

É possível dizer que há uma relação direta entre a questão racial e o encarceramento no Brasil? O que fazer para que a luta antirrascista seja incorporada por toda a sociedade?

O encarceramento tem tudo a ver com o racismo. Acho que é preciso trazer para o conjunto da sociedade a responsabilidade do racismo e de tudo o que ele causa. O racismo custa tão caro para se manter quanto custaria para a gente acabar com ele. A sociedade sustenta o racismo a um preço alto — e, para nós, das favelas, é um preço mais alto ainda porque custa as nossas vidas, a desestruturação de nossas famílias. Muitas mães morrem, muitas famílias se perdem. Custaria menos a gente acabar com o racismo, incluir o povo preto, reconhecer e reparar as injustiças. Um exemplo é o tanto que se desvia (não é nem que se gasta) com essa população encarcerada. Em vez de construir escolas técnicas para formar o nosso povo, a gente constrói presídios para colocar o nosso povo. O prejuízo é de todos. O que acontece com nossos jovens, quando entram na nossa casa e — quando não prendem, matam — é racismo. A gente precisa entender isso.
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