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De professores a youtubers: 'só com prática e exercício'

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Publicado em:22/10/2020

Heleno Araújo, da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), avalia o impacto da pandemia sobre educadores e as pressões para volta às aulas. 'Não se pode se tornar um youtuber ou um professor bom de câmera sem prática e exercício', diz o professor de ciência no ensino fundamental e de biologia no ensino médio. Confira a entrevista dele para a repórter Liseane Morosini, da revista Radis.  

Um Brasil que não controla o vírus, mas é controlado por ele, é o que vem à mente do professor Heleno Araújo, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE), quando fala em retorno presencial dos alunos às escolas. E, caso isso realmente se concretize, alunos e trabalhadores da educação básica, que representam 25% de toda a população, serão colocados em risco à medida em que vão interagir e se deslocar aumentando a chance de contaminação. Por isso, ele vê como um equívoco um planejamento de volta às aulas que não envolva os educadores, que para ele são os maiores conhecedores do ambiente escolar.

Há 31 anos, Heleno é professor de ciência no ensino fundamental e de biologia no ensino médio. Do Recife, onde mora, o atual presidente da CNTE falou à Radis sobre os impactos da pandemia na educação e analisou as dificuldades enfrentadas pelos professores que saíram da sala de aula presencial e, sem preparação, tiveram que se adaptar ao ensino remoto. “O primeiro grande impacto foi a exigência de o governo querer fazer aula remota sem que os professores tivessem a formação adequada para isso. Não se pode se tornar um youtuber ou um professor bom de câmera sem prática e exercício”, constata.

Além disso, ele critica a volta às aulas, pensada para escolas da rede pública que têm condições de receber os alunos. Para Heleno, os problemas ocorridos na pandemia não são novos. Segundo ele, a pandemia apenas escancarou desigualdades presentes no campo da educação. “A pandemia expõe as desigualdades educacionais dentro da própria rede pública já que a maioria das escolas não têm condições de garantir segurança sanitária para retorno”, afirma.

O que dizer sobre a volta às aulas?

Consideramos precipitada porque a primeira orientação da Organização Mundial da Saúde não está sendo respeitada. O Brasil não controla o vírus, o Brasil ainda está controlado pelo vírus. Basta ver a média de mortes que se mantém. Somos um país com mobilidade de um estado para outro. A base para poder pensar no retorno presencial não foi pensada ainda. A curva não caiu, não tem controle. Então, é tudo precipitado. Até em países em que a curva foi descendente, como Alemanha e França, estão voltando os casos. Como podemos abrir as escolas para as atividades presenciais? Há uma precipitação no debate e há um protocolo de imposição de data que é feito sem diálogo com a comunidade escolar, pois querem que os governantes continuem escondendo a defasagem das escolas públicas para o retorno presencial. Estão se acobertando quando dizem que o “retorno é lentamente, aos poucos” para poder abrir aquelas escolas que têm boas condições dentro da rede pública. Ficou difícil de encontrar o momento do retorno presencial porque está escancarado que uma parte das escolas particulares e a maioria das escolas públicas não têm infraestrutura adequada para realizar suas atividades.

Por que as escolas não conseguem dar segurança para o retorno dos alunos?

A pandemia expõe as desigualdades educacionais dentro da própria rede pública já que a maioria das escolas não têm condições de garantir segurança sanitária para retorno. O plano é voltar pontualmente em escolas mais estruturadas e aí nós vemos a desigualdade do atendimento. Em cada estado há uma cultura e costumes diferentes, regiões distintas, e não pode ser a mesma coisa de ponta a ponta desse país. Ainda, como é que vai ser o trabalho e como vai ser tratada a questão escolar em níveis diferentes de sistemas, do estadual para o municipal, da pública para a particular, de um município e estado para outro? A pressão é do setor privado, do comércio, da indústria. A Fenep [Federação Nacional das Escolas Particulares] foi a primeira a fazer um protocolo e entregar aos municípios e estados para poder abrir algumas de suas escolas. Ao retornar para a escola, surge também a pressão da família que não tem onde deixar os filhos. Por mais que a gente diga que escola é um lugar de formar cidadão, de socialização para formar um sujeito, muitos fazem a escola de depósito de criança.

Como o ensino e a aprendizagem em geral foram impactados pela pandemia?

O primeiro grande impacto foi a exigência de o governo querer fazer aula remota sem que os professores tivessem a formação adequada para isso. Não se pode se tornar um youtuber ou um professor bom de câmera sem prática e exercício. Outro grande impacto foi que eles não têm equipamento exclusivo para desenvolver as atividades do processo de ensino e aprendizagem. Mais da metade dos professores que estão em casa dividem seu equipamento com alguém da família. E, embora 82% dos estudantes tenham diminuído a participação nas aulas remotas, mesmo assim os professores sentiram que o tempo de seu trabalho aumentou porque eles tiveram que correr atrás já que o poder público não garantiu o processo de formação. Há, ainda, essa batalha do governo Bolsonaro, estimulado pela ministra Damares [titular do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos], em regulamentar a educação domiciliar. Isso aumentou o sentimento de profissionais e de suas famílias que sentiram quanto é importante o trabalho desses professores e professoras.

Que outros aspectos foram evidenciados no processo educacional durante a pandemia?

Há um aspecto que tem um impacto na formação, na própria dinâmica de serviço público, já que a Constituição diz que o ingresso no serviço público se dá exclusivamente por concurso público. Há um número elevadíssimo de contratação temporária e muitas foram canceladas ou suspensas. Também foram suspensas terceirizações no serviço complementar de apoio à escola. Tem um grande contingente na área de educação que ficou sem apoio do Estado por conta da queda de receita nas escolas. Gestores decidiram rescindir, suspender ou não renovaram seus contratos. Ao rescindir contrato temporário, o governo quebrou o vínculo de muitos professores com suas turmas. Em Pernambuco, 46% da força de trabalho é de contrato temporário e não haverá renovação. Se não tem renovação, eu não sou obrigado a dar aula. Então, quem vai dar aula? Tem toda uma dinâmica de impacto muito forte no conjunto das escolas públicas. Nas privadas, houve um processo de aulas remotas que começaram a ser trabalhadas e essas aulas foram repetidas para muitos alunos, provocando demissões. Há um impacto muito negativo para a categoria, no setor público e privado.

Por que houve demissões?

O governo pode ter analisado primeiro a economia e avaliado que não iria pagar porque não estavam trabalhando. Mas temos uma pesquisa que apontou que 84% dos professores estão envolvidos em algum trabalho remoto e em atividade de interação com os estudantes. Apesar disso, sabemos que não alcançamos a metade dos estudantes com as atividades remotas, teleaula ou com material produzido ou levado em casa. Menos da metade foram alcançados.

As aulas remotas conseguem suprir o conteúdo presencial?

Na educação, toda política e ação tem que ser um processo de continuidade. O que deixou de ser feito, não foi no momento da pandemia. Os artigos 60, 61, 62 da Lei de Diretrizes e Bases descrevem tudo que deveria ser feito em termo de formação continuada e tecnológica. O Conselho Nacional de Educação já definiu a relação do número de alunos por professor, por funcionário de escola e a quantidade de aluno por sala de aula. O que deixou de ser feito é um processo que foi conquistado na política, na lei e nas resoluções do conselho e na prática os governos deram a mínima para ele. Se tivessem aplicado o que está nos documentos desde 1997 teríamos um professor com formação na área de tecnologias de comunicação e informática, e que estaria utilizando esses equipamentos para fazer a complementação pedagógica das atividades na pandemia, não a substituição. Teria um processo de ensino e aprendizagem mais aprimorado, bem organizado e trabalhado. Mas não houve vontade política e, com a pandemia, o professor teve que se afastar do espaço escolar que escondia da sociedade esses dramas e a falta de condições. O que deixou de ser feito nos últimos anos em nosso país foi escancarado. Não daria tempo para resolver em janeiro, fevereiro ou março. Temos leis perfeitas com relação ao processo de formação, de ingresso na carreira, de valorização profissional, da relação de ensino aprendizagem, e que nunca foram colocadas em prática de forma adequada.

Qual o tamanho do segmento da educação brasileira?

Na educação pública, somando o conjunto da educação básica, pública e privada, são 40 milhões de matrículas mais os 4,5 milhões de trabalhadores. Vemos que ela atinge 25% da população, ou seja, envolve diretamente um quarto da população. Se colocarmos uma pessoa da família ou duas por estudantes e trabalhadores, no mínimo, significa que esse impacto recai diretamente sobre três quartos da população. Na educação básica, somamos as matrículas da infantil, fundamental, médio e suas modalidades da educação básica, que são, educação profissional, especial e de jovens e adultos. Somos 2,6 milhões de docentes no Brasil, mas há 1,7 milhão só na área pública. É um número elevado que deve ser somado aos funcionários de escolas nas redes municipais, estaduais e federal.

A pandemia fez com que os profissionais de saúde fossem mais valorizados. Houve o mesmo com profissionais da educação?

Quem precisa e utiliza os serviços públicos ainda não alcançou essa dimensão. Esse grande impacto existe na saúde porque os 210 milhões de brasileiros em algum momento precisam de atendimento na área médica. O impacto é maior porque o SUS atende a uma demanda maior. Mas mesmo que o debate mexa com esse grande número da população, ela ainda não conseguiu perceber o que foi a Emenda Constitucional 95. A EC 95 foi vendida como um ajuste fiscal necessário, porque os governos estavam gastando muito com o serviço público, e dizem que os servidores públicos são o que afunda o país. E agora foi mostrado que para cuidar da saúde tem que flexibilizar o Teto de Gastos. Só que vimos que começaram de novo a pautar a austeridade fiscal, o ajuste fiscal, colocar o Teto de Gastos como um elemento para o país não entrar no caos. Enquanto isso, 1% da população vai concentrando renda, aliás, aumentando a sua concentração de renda.

O impacto da pandemia foi o mesmo em todos os segmentos da educação?

Não dá para colocar tudo no mesmo patamar. Infelizmente, alguns municípios se movimentaram de forma muito equivocada ao fazer aula remota para educação infantil, o que não tem condições. Não é a mesma dinâmica. Tanto para educação infantil como para os anos iniciais do ensino fundamental houve um impacto menor no processo da interação do trabalho. Como é que vai alfabetizar remotamente? Já os anos finais do ensino fundamental se aproximam mais do ensino médio e é outro processo. Temos dificuldades na interação da educação especial, e podemos colocar um nível diferente para educação de jovens e adultos. Então tem níveis e impactos distintos para cada um deles. Eu acho que o ensino médio teve um impacto menor, vamos dizer assim, comparado com outros níveis porque os adolescentes têm mais tempo com a mídia, têm mais possibilidade de fazer pesquisas, se concentram mais nas atividades das aulas. Esses podem ter tido um impacto menor do que o ocorrido no fundamental e na educação infantil em termo do processo de ensino aprendizagem.

Qual o problema do ensino médio?

Discordo quando dizem que “o problema do ensino médio é que tem muitas disciplinas”. O ensino médio ficou abandonado por muitos anos, mesmo com financiamento do Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação]. Os prefeitos e governadores só pensavam no ensino fundamental porque cada aluno vale um cifrão. Temos também dificuldades no ensino médio. Primeiro porque a avaliação do Ideb [Índice de Desenvolvimento da Educação Básica] é capenga pois só avalia matemática e português. Ela não considera a situação socioeconômica do estudante e dos próprios profissionais, nem as condições de infraestrutura das escolas. Mas os dados do Ideb mostram que 25% dos professores que lecionam matemática e 26% dos que lecionam português não foram formados em matemática e na língua portuguesa. Isso dá um quarto de defasagem. Em Pernambuco, há turmas de terceiro ano que passaram o ano todo sem professor de física ou que tiveram quatro professores de matemática no mesmo ano. Educação é um vínculo criado entre professor e aluno para desenvolver o processo do ensino aprendizagem. Como é que uma turma de 3º ano, com quatro professores de matemática, vai criar um vínculo que de fato faça com que ele aprenda? Com a pandemia esses problemas só aumentaram.

O que você acha da Base Nacional Comum Curricular?

A base nacional era para educação básica, que começa na infantil e vai até o ensino médio. Mas fizeram primeiro uma reforma no ensino médio, mentiram pra população dizendo que iriam fazer itinerários pedagógicos e o aluno poderia escolher que escola e qual itinerário iria seguir. Isso é uma farsa pois mais da metade dos municípios do Brasil só tem uma escola de ensino médio e ela não vai oferecer cinco itinerários pedagógicos para o aluno escolher qual vai fazer. Foi um artifício que utilizaram. Aqui em Pernambuco, essa medida excluiu muitos estudantes do ensino médio. A escola que funcionava em três turnos, passou a funcionar em turno único, integral. E muitos que não podiam ficar na escola tiveram que sair.

Que lições você acha que a pandemia vai deixar?

Minha esperança é que essa situação da pandemia nos leve a refletir sobre esses temas. Vamos precisar aprofundar a reflexão sobre a ideia da educação domiciliar, da escola militarizada que vem sendo colocada, da necessidade do processo de formação onde a tecnologia não venha para substituir o profissional, como algumas plataformas privadas estão prometendo. Minha expectativa é que a gente tenha forças para trazer a formação tecnológica para os profissionais da e para a comunidade escolar, não só para os professores. Tem que ser para os trabalhadores, estudantes, pais e mães, para que todos saibam usar essa tecnologia e que ela venha como um processo de complementação pedagógica, para a gente tentar recuperar esse período de conteúdo para nossos estudantes no processo de ensino e aprendizagem. Minha expectativa e esperança é que a gente possa aprofundar essas reflexões, e não querer apenas voltar como era no passado porque se for assim, vamos continuar muito ruim no processo de aprendizado.



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