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Covid-19 reforça desigualdade racial no Brasil

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Publicado em:16/10/2020

A pandemia de Covid-19 possui comportamento desigual entre brancos e negros. A constatação faz parte de um levantamento publicado na revista Cadernos de Saúde Pública (CSP), da Fiocruz, que comparou a evolução de mortes e hospitalizações, considerando o quesito raça/cor, ao longo das semanas epidemiológicas (SE) de notificação. O artigo Desigualdades raciais e a morte como horizonte: considerações sobre a Covid-19 e o racismo estrutural revela queda de internações e óbitos em brancos e o aumento em negros, em poucas semanas, o que indica o percurso trilhado pelas desigualdades raciais no país.  O trabalho foi destaque na Agência Brasil.


O texto, cuja autora principal é a pesquisadora Roberta Gondim, da Escola Nacional de Saúde Pública da Fiocruz, revela que na SE 15 (4 a 10 de abril), a proporção de hospitalizações era de 73% na população branca e de 23,9% entre os negros. No decorrer do período, a tendência de hospitalização seguiu entre brancos e teve aumento entre negros, alcançando uma paridade de 49% das hospitalizações na SE 21 (17 a 23 de maio), mas com uma discreta diferença a maior entre negros.
 
 
Já o número de óbitos de negros superou o de brancos, ainda que a hospitalização não tenha acompanhado essa tendência. O levantamento identificou que a evolução da proporção de óbitos, do primeiro boletim em que houve a estratificação por raça/cor, até o boletim de maio, reduziu de 62,9% para 41% em brancos e cresceu de 34,3% para 57% em negros. “Essa tendência reforça a análise sobre a dificuldade de acesso dessa população aos serviços de saúde, principalmente os de maior complexidade, como os leitos de cuidados intensivos”, observa a pesquisadora da Ensp/Fiocruz.
 
Dados mais recentes da epidemiológica 38 (13 a 19 de setembro de 2020) mostram que as hospitalizações foram mais elevadas entre a população negra (38,3%) do que na população branca (35,4%). A diferença foi mais expressiva em relação aos óbitos, com 41,5% na população negra e 33,7% entre os brancos. “Verificamos que as hospitalizações na população negra são menores quando comparadas à semana epidemiológica 21, em que foi registrado um valor de 49,1%. Quanto aos óbitos, ainda se observa que a população negra é a mais acometida pela Covid-19”, analisou a pesquisadora Ana Paula da Cunha, também autora.
 
 
No que diz respeito à letalidade, ela também é maior em negros, o que expõe uma grande diferenciação nas chances de morte segundo raça/cor. Um paciente negro analfabeto tem 3,8 vezes mais chances de morrer em relação ao branco com nível superior.
 
Segundo o artigo do CSP, o comportamento desigual da doença entre as populações brancas e negras, com desfavorável tendência para estas últimas, ratifica as análises sobre as desigualdades raciais. “Discussões sobre raça têm sido preocupação de negras e negros. Não compõe o rol de preocupações da maioria dos não negros, devido tanto à naturalização do privilégio daqueles, como da subalternização destes. A questão de raça importa aos racializados - negros, indígenas, amarelos etc. - num mundo em que o branco é concebido como universal”, alerta o texto.
 
Olhar a pandemia sob a luz das desigualdades
 
A pandemia de Covid-19 no Brasil demonstra que regiões e populações são colocadas em condições de maior vulnerabilidade aos riscos de contaminação e morte. O artigo mostra que, nos últimos anos, observou-se um aumento dos indicadores de desigualdade, atingindo, sobretudo, a população negra. Em 2018, no Município do Rio de Janeiro, 30,5% das pessoas negras (pretas e pardas) residiam em favelas, contra 14,3% de pessoas brancas. Em termos de cobertura de saneamento básico, negros são a maioria vivendo em locais com infraestrutura inadequada e exposição a vetores de doença: 12,5% de negros residem em locais sem coleta de lixo e apenas 6% da população branca; sem abastecimento de água por rede geral, os negros representam 17,9%, e brancos 11,5%; sem esgotamento sanitário por rede coletora ou pluvial, negros representam 42,8% da população contra 26,5% de brancos.
 
A desigualdade é evidente ao observarmos que 32,9% dos negros compõem a parcela de brasileiros que vivem com até USD 5,50 por dia, além daqueles que vivem na linha da extrema pobreza, com rendimento de até USD 1,90 por dia (8,8%). “Desigualdades raciais e a morte como horizonte: considerações sobre a COVID-19 e o racismo estrutural” constata também que, no Brasil, há estratificações estruturais desfavoráveis à inserção social da população negra no mercado de trabalho. Apesar de corresponderem, em 2018, a 55,8% da população nacional, são 64% dos desocupados e 66,1% dos subutilizados.
 
O texto, assinado pelas pesquisadoras Roberta Gondim de Oliveira, Ana Paula da Cunha, Ana Giselle dos Santos Gadelha, Christiane Goulart Carpio, Rachel Barros de Oliveira e Roseane Maria Corrêa, foi publicado no Cadernos de Saúde Pública de setembro de 2020.
 
*Foto: UNA-SUS




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