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Acolhimento vai às ruas: Serviço Noturno de um Centro de Atenção Psicossocial Álcool Outras Drogas

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Publicado em:22/10/2020

A equipe do Serviço Noturno do Centros de Atenção Psicossocial Álcool Outras Drogas (CAPSad) Miriam Makeba, em Ramos, Rio de Janeiro, relata o seu trabalho, pautado na lógica da Redução de Danos (RD) no território, “que vai além de levar insumos concretos como camisinha, lubrificante, álcool em gel e máscaras em tempos de pandemia”. “É sobre levar água para matar a sede ou algo para comer (biscoito ou chocolate) e também oferecer a escuta sem julgamento”, definem. Confira o texto publicado na Radis de outubro!     

Estávamos em 2017, o primeiro ano da Emenda Constitucional que limita os investimentos em saúde pública – uma perda que vai deixar reflexos por muitos anos. Um grupo de trabalhadores do CAPSad Miriam Makeba, no Rio de Janeiro, está reunido após um dia de trabalho para pensar em estratégias de cuidado em redução de danos para população trans/travesti do território. Assim começou o Serviço Noturno (SN), uma atividade que visava enfrentar o sucateamento do SUS e combater o estigma sofrido pela população trans e travesti. Com os sucessivos ataques ao SUS (demissão em massa de profissionais, fechamentos de UBS) e incertezas provocadas nos trabalhadores naquele momento, o SN foi interrompido.


Em 2020, em meio à pandemia de covid-19, o serviço foi retomado como forma de resistência e para garantir acesso e cuidado à população trans frente à pandemia. O SN é um dos campos territoriais do CAPS para covid além de seu mandato institucional, mas que em sua essência visa a promoção de acesso à saúde e às políticas públicas para a população trans/travesti. Composto por uma equipe multiprofissional, incluindo enfermeira, técnica de enfermagem, redutora de danos, psicóloga e assistente social, comprometidos com a construção do vínculo e do cuidado, permite o encontro com a rua e com vidas tidas como transviadas.


O trabalho do SN é pautado na lógica da Redução de Danos (RD) no território, que vai além de levar insumos concretos como camisinha, lubrificante, álcool em gel e máscaras em tempos de pandemia. É sobre levar água para matar a sede ou algo para comer (biscoito ou chocolate) e também oferecer a escuta sem julgamento, o olhar e a percepção do que trazem para mostrar, seja a roupa da noite, seja o artesanato feito pela usuária, ou o batom vermelho que reluz com a iluminação da rua. A RD não é só o acesso à saúde com equidade, justiça social, alimentação e direitos garantidos. É também ampliar as possibilidades da vida por meio do afeto, da empatia do cuidado e da presença.


Um trabalho que é potencializado pela representatividade recíproca, com a presença de profissionais trans/travestis com seus pares e agentes de cuidado, que conhecem o território. Ao ser convidada a trabalhar no CAPS, Lorani, redutora de danos, relata: “Estava vivendo um desespero não muito diferente de toda a população, e vi que não me faria bem sofrer sozinha em tempos de covid. E resolvi me juntar à causa. Ao chegarmos àquele local, a primeira demanda que ouvimos foi a fome. As pessoas atendidas demoram um pouco a acreditar, pois há uns dois anos o local estava esquecido”. As principais demandas trazidas são referentes à saúde, hormonioterapia, documentação com mudança de nome, inserção no mercado de trabalho formal, continuidade de formação escolar, acesso a benefícios e cuidados em saúde mental.


Para realizar esse trabalho é preciso se articular com outros dispositivos da rede. O SN conta prioritariamente com a unidade de acolhimento adulto Metamorfose Ambulante, o Consultório na Rua da A.P. 3.1, unidades básicas de saúde, CRAS/CREAS, terceiro Setor etc. Embora seja um trabalho que expande o mandato do CAPSad, muitos desafios ainda estão colocados. Nas diversas articulações e construções de rede, nos deparamos com a transfobia institucional presente no SUS, com a violência do Estado e com o desmonte maciço dos serviços de saúde.


O SN é um esforço coletivo de integralidade do cuidado da população trans/travesti, e que permite, nos diversos encontros que acontecem à noite, pela rua, o acesso à população em situação de rua e outras, em vulnerabilidade, que permanecem ou circulam na região. Para nos aproximar dessas pessoas, tidas como marginais, precisamos reinventar a nossa clínica, pois não há acesso separado de acolhimento. Atualmente, o SN está em busca de uma identidade mais representativa, e para isso tem discutido com as próprias usuárias o nome que represente a atividade e o cuidado com a população trans/travesti.


O cotidiano do trabalho mostra a importância de dar visibilidade a uma população estigmatizada e que política pública de qualidade só é possível se pensada e construída junto aos usuários. O SN tem sido fundamental para a formação continuada dos profissionais envolvidos.


* Evelyn Portugal, Fabiane Andrade, Hanna Mendes, Lorani Sabatelly, Sônia Ribas, Laura Andrade, Lucimar Dantas, Rafael Bartolo e Rejane Lima



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