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Consultório na Rua e a vulnerabilidade social em tempos de pandemia foram tema de Ceensp

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Publicado em:15/09/2020
Dona Lucinha conta como se sente vista e é bem atendida pela equipe do Consultório na Rua de Acari, Zona Norte do Rio. “Eles que me acharam, eu tive essa surpresa. Eu ficava sentada lá, amuada. Eles perguntaram se eu queria ajuda”. Dona Lucinha é uma das protagonistas do vídeoConsultório na Rua - Conhecer para acolher”, que retrata experiências vividas pelas equipes de Consultório na Rua do Rio de Janeiro. O vídeo, lançado no dia 9 de setembro, durante o Centro de Estudos Miguel Murat de Vasconcellos (Ceensp), tem o objetivo de fortalecer políticas públicas e práticas humanizadas voltadas ao cuidado da população em situação de rua. 
 
 
O vídeo, com duração de onze minutos, promove o trabalho das equipes e procura incentivar gestores a implantar uma equipe de Consultórios de Rua nos seus municípios, conforme observou a pesquisadora do Departamento de Ciências Sociais da ENSP Mirna Teixeira. “É um trabalho com dimensão ética, que valoriza a vida”, afirmou. Mirna apresentou, durante o evento, dados da pesquisa sobre a produção do cuidado primário à saúde da população de rua, prestado por equipes de Consultório na Rua do Rio de Janeiro. Um dos produtos da pesquisa é o vídeo, que conta também com um teaser, de três minutos. Outros produtos são: a cartilha  “Produzindo Saúde nas Ruas”, e a Web TV Consultório de Rua. 
 
 
O estudo identifica estratégias, potencialidades e barreiras de acesso,além de trazer recomendações para profissionais e gestores. Uma delas é o conhecimento do perfil epidemiológico da população,  fundamental para o planejamento das equipes. A pesquisa revelou, por exemplo, que a população atendida pelas 7 equipes cariocas é 54% parda e 28% negra, e pertence a todas as faixas etárias. Muitos possuem comorbidades infectocontagiosas, como tuberculose, adição a drogas ou álcool, e doenças crônicas como diabetes e cardiopatias. Para a efetividade do cuidado, segundo Mirna, é importante a construção de vínculos com essa população. “O vínculo com as equipes de Consultório na Rua se dá muito por meio de atividades em grupo, como práticas esportivas e integrativas. O processo de construção de vínculo faz com que o usuário se sinta visível. Isso ajuda a potencializar o sentimento de autonomia”, observou.
 
 
Mirna falou também de necessidades urgentes ligadas à situação de vulnerabilidade social, como falta de documentação, que demandam atenção intersetorial. Durante a pandemia, conforme observou a pesquisadora, muitas pessoas perderam seu trabalho informal, e, especialmente no Centro do Rio de Janeiro, as características da população no território mudaram. “Mais pessoas têm ficado no Centro durante a semana, pessoas que têm residências afastadas e dormem na rua porque não têm dinheiro para o transporte.” Na opinião da pesquisadora, é preciso romper com o estigma que marginaliza toda e qualquer pessoa em situação de rua. “Trata-se de uma população marcada por processos de exclusão social e que convive com experiências de desrespeito e ausência de reconhecimento social diariamente.”
 
 
“A equipe trabalha muito pelo afeto; nosso trabalho promove acesso e tem toque, contato”, apontou Daniel de Souza, da equipe do Consultório na Rua de Manguinhos, Zona Norte do Rio. Daniel, que é um dos fundadores da Rede Nacional Consultórios na Rua e de Rua observou, também, que o contato direto ajuda a combater a invisibilidade e a promover os direitos desses usuários do sistema de saúde. “A pandemia tem escancarado uma invisibilidade e uma vulnerabilidade de quem vive em situação de rua. O que a gente tem feito é mostrar que esses sujeitos são sujeitos de direitos”, afirmou. “Desde 2011, existe Consultório na Rua, e a gente vem trabalhando o acesso. Levamos a medicação, distribuímos na rua; mas, muitas vezes, a pessoa só é recebida dentro de uma unidade se o profissional da equipe a acompanhar”, criticou. 
 
 
“A clínica é política, precisamos dar mais visibilidade a essa população”, afirmou o pesquisador da Fiocruz Brasília, Marcelo Pedra, no evento. Ele lembrou que há 177 equipes de Consultório de Rua no Brasil para atender uma população que pode chegar a 200 mil pessoas, segundo estima o Ipea. “Só cadastrados no SUS são 98 mil pessoas”, ressaltou. Ele contou que, no Distrito Federal, onde vivem cerca de 1.050 pessoas em situação de rua, a redução das exigências para as pessoas se manterem nos abrigos diminuiu a evasão desses espaços. 
 
 
Marcelo fez uma apresentação sobre os múltiplos sentidos da noção de vulnerabilidade. “Uma das condições da população em situação de rua é a maior vulnerabilidade, uma vez que está exposta a condições sociais estruturais que fazem com que a sobrevivência seja mais difícil. A vulnerabilidade, nesse caso, aumenta a chance e causa, com muita frequência, adoecimento, sofrimento e exposição à situação de risco”, definiu. No entanto, conforme observou o pesquisador, os profissionais de saúde que lidam com a situação também se sentem vulneráveis. “O profissional relata que também se sente vulnerável por atuar nos condicionantes e determinantes sociais da saúde e ter baixa possibilidade de interferir”, apontou. 
 
 
Marcelo falou também do Plano de Ação SUS & SUAS de atendimento à população em situação de rua do Distrito Federal, uma parceria da Fiocruz Brasília com a Secretaria Estadual de Saúde da qual participam residentes de três especialidades: Medicina de Família e Comunidade, de Gestão de Políticas Públicas para a Saúde e da Residência Multiprofissional em Atenção Básica. 
 
 
 
Confira, aqui, o vídeo “Consultório na Rua - Conhecer para acolher”.
 
Confira o teaser.
 

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