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Saúde dos Agentes de Combate a Endemias foi tema de debate na ENSP

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Publicado em:16/09/2020

O Centro de Estudos de Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana (Cesteh/ENSP) realizou uma live, no Facebook, sobre Saúde e trabalho dos ACE em tempos de pandemia: processo de adoecimento e morte causado pelo uso de agrotóxicos neurotóxicos e cancerígenos banidos em outros países, aprofundado por Covid-19.  A atividade contou com diversos pesquisadores e representantes de sindicatos que mostraram o descaso com a saúde dos trabalhadores que lidam diariamente com veneno em seu ambiente de trabalho. A atividade teve coordenação da pesquisadora do Cesteh  Ariane Larentis que apresentou o terceiro boletim Saúde e Trabalho: Estudo do Impacto à Saúde de Agentes de Combates a Endemias do Rio de Janeiro, que tem como foco os riscos que esses agentes de combate de endemias correm frente à pandemia e já está disponível no site do Cesteh, e mediação do também pesquisador do Cesteh, Leandro Carvalho. 

 

A abertura contou com a presença do coordenador do Cesteh, Luiz Cláudio Meirelles, apresentando o Projeto Integrador Multicêntrico, que objetiva avaliar os impactos na  saúde de agentes de combates de endemias pela exposição de agrotóxicos no Estado do Rio de Janeiro, subsidiando as políticas públicas, construindo experiências formativas e desenvolvendo estratégias de atuação e enfrentamento. “É um projeto muito importante porque atuamos em conjunto com os sindicatos, com a participação efetiva dos trabalhadores”, falou o pesquisador.

Luiz destacou a realização de oficinas para discutir com os trabalhadores os impactos por conta de um número excessivo de mortes. “Precisávamos enfrentar e compreender isso”. Luiz contou que foi montada uma equipe na intenção de reunir mais informações sobre os casos, já que, segundo ele, muitas mortes podem estar associadas à exposição de substâncias químicas.

A identificação das nocividades do processo de trabalho também são vistas pelo projeto, já que existe relato de como o processo de trabalho pode ser danoso aos trabalhadores. Luiz alerta que, muitas vezes, essas identificações não ocorrem, mas, quando existem, elas são realizadas de uma forma falha. “São, simplesmente, a partir de exames de colestase sanguínea para verificar se essa enzima estava num nível adequado ou não no sangue; porém, ela fala muito pouco da situação de saúde do trabalhador. O correto é que você tenha uma avaliação clínica, epidemiológica e laboratorial conjunta e discutida para chegar à conclusão dos efeitos da saúde em exposição permanente de agrotóxico”, reforçou. 

O Cesteh montou um atendimento no ambulatório como estratégia de acompanhamento, a fim de entender como o processo de intoxicação impacta o ACE. “Isso permite que a gente organize, melhore a vida do profissional que está envolvido nesse processo, além de ajudar na organização do Cesteh para uma intervenção mais adequada destinada a esses trabalhadores”, explicou o pesquisador.  

Além disso, Luiz Cláudio Meirelles trouxe alguns dados do trabalho de pesquisa realizado com a categoria. Ele citou, como exemplo, o elevado número de trabalhadores de guardas de endemias que tiveram diagnósticos de tremor essencial, o que identificou a necessidade de mudança no modelo de controle de vetores e no processo de trabalhos dos agentes de combates de endemias. “A pandemia deixou claro algumas vulnerabilidade, por isso é importante ter em mente que só defendendo o SUS vamos conseguir resolver os problemas dos guardas e de outras categorias da saúde”, finalizou o pesquisador.  

A Toxidade do inseticida Cielo, substitutivo da Malationa foi o assunto abordado pela pesquisadora do Cesteh  Ana Cristina Simões.  Essa substância foi recomendada pelo governo e pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como mais segura do que anterior.  A pesquisadora, em sua fala, analisou os documentos emitidos pelo governo sobre a recomendação ao produto Cielo — é uma combinação de outras substâncias tóxicas, como a praletrina e imidacloprida — e as contradições apresentadas no teste realizado pelo representante que comercializa o produto. 

Ela ressaltou que a utilização do produto é voltada para o combate às principais arboviroses do país – Dengue, Chikungunya, Febre Amarela e Zica —, destinada aos mosquitos adultos. Para explicar a toxicidade do produto, a pesquisadora utilizou os testes realizados pela empresa, entre o Cielo  e uma análise das substâncias que compõem o produto em separado, o que levanta um questionamento. “A empresa diz que a toxidade aguda dos inseticidas não potencializa o perfil toxicológico, mas a empresa não considera a via dérmica e inalatória. Se, nas outras vias, potencializa, não dá para fazer uma afirmação categórica, já que as outras vias mostram o contrário. É uma afirmação perigosa”, salientou Ana, mostrando que elas têm toxidades bastante perigosas em longo prazo, como a perda de peso, alopecia, tremores, dentre outros, e, mesmo assim, a empresa continua atestando a baixa toxidade. Além disso, o produto tem uma alta toxidade no ambiente, atingindo diretamente as abelhas.

 A pesquisadora questiona os resultados apresentados pela empresa. Ela alegou que a análise das substâncias apenas pela toxicidade aguda não reflete na principal forma da qual os trabalhadores e nós, população ambientalmente expostas, estaremos convivendo e tendo contato com essa substância. “Daqui a alguns anos, poderemos contar os casos do Cielo como estamos contando agora de outras substâncias”, concluiu. 

Experiências exitosas de controle de vetores sem uso de agrotóxico e proposta para a proteção dos trabalhadores expostos

Mas existe a possibilidade desse controle sem o uso de agrotóxico. Foi esse o tema abordado pela pesquisadora do Instituto Aggeu Magalhães, da Fiocruz de Pernambuco, Aline Gurgeel.

Para explicar sobre o tema, a pesquisadora voltou ao ponto de origem das arboviroses. “As pessoas acham que a culpa é do mosquito e do vírus. Somos treinados a achar que o grande responsável é o mos,quito; porém ele existe dentro de um contexto”, o que a pesquisadora explicou sendo uma junção de desigualdade estrutural com péssimas condições de saneamento. “A gente tenta resolver com veneno um problema que não tem origem no veneno, e achamos que, se colocarmos ele dentro de um reservatório de água, irá resolver todo o problemas, mas não vai”, salientou.

A pesquisadora apresentou gráficos publicados pela revista Lancet comprovando que a utilização do veneno não resolve o problema, além de gerar maior resistência dos insetos e prejudicando cada vez mais o meio ambiente. Mas, para tal fato, Aline apresentou o que acredita ser a solução. “As questões do saneamento ambiental, assim como ações educativas horizontais e controle mecânico e biológico”. Para esclarecer, a pesquisadora mostrou o alto número de casos na região metropolitana mais vulnerável no Recife, epicentro da epidemia do zica vírus, mostrando que a falta de saneamento influencia diretamente na propagação dos mosquitos.

As ações educativas, defendida pela pesquisadora, são atividades construídas coletivamente, atendendo a necessidade de cada território. A pesquisadora apoia o combate dessas substâncias principalmente com a utilização de saberes ancestrais, apresentando uma lista, fruto de um trabalho em que foram levantadas espécies nativas do sertão pernambucano, que têm alguma eficácia para o controle do Aedeys; todas elas com comprovação científica no combate do mosquito. 

Já no que diz respeito aos controles biológicos mecânicos, Aline apresentou o controle feito por peixes que se alimentam de pequenas larvas em reservatórios, o que também ajuda no controle da proliferação do mosquito. “Usamos o veneno, não por ele ser o método mais eficaz, mas por ter diversos interesses econômicos por traz dele”, enfatizou.
 
E para a exposição ocupacional a agentes químicos durante as ações vetoriais que já acontecem? A pesquisadora reforçou que a “proteção precisa ser para todos, principalmente para os trabalhadores que atuam diretamente com o veneno”. Como métodos para esse combate, ela apresenta a estratégia de resistência e enfrentamento, como ações sindicais, o monitoramento e vigilância, como a avaliação periódica de saúde e as medidas individuais, enquanto esses modelos de combate vigorarem. 
 
Além das apresentações da mesa, a live contou com a participação de mais oito pesquisadores convidados. A pesquisadora da Universidade de São Paulo Larissa Bombardi; a pesquisadora da Fiocruz Pernambuco Idê Gurgel; a pesquisadora do Instituto Nacional do Câncer (Inca) e da Unirio Márcia Sarpa; o pesquisador do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Iesc/UFRJ) Gabriel Schutz; a pesquisadora da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz) Edilene Pereira; a pesquisadora da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Fabíola Nunes; a pesquisadora da Universidade Federal do Vale de São Francisco (Univasf) Cheila Beidor; junto com entidades apoiadoras, formada pelo Fórum Nacional de Combates aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, representado por Pedro Serafim; a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, representada por Alan Tygel; a Defensoria Regional do DH no Rio, por Thales Arcoverde Treiger e o GT de Saúde e Ambiente da Abrasco, e a contribuição por escrito das pesquisadoras do Cesteh Lia Giraldo e Leda Regis. 
 
O último bloco contou com a participação dos sindicatos da categoria que ressaltaram, em suas intervenções, a importância do trabalho que o Cesteh vem desenvolvendo em conjunto com as entidades sindicais no Rio de Janeiro e da integração entre trabalhadores e academia na produção do conhecimento científico. O integrante do Sindicato dos Trabalhadores no Combate às Endemias e Saúde Preventiva no Estado do Rio de Janeiro (Sintsaúderj) Sandro Cezar ressaltou o apoio do projeto para fundamentar tecnicamente ações jurídicas que o sindicato tem adotado para garantir proteção mínima aos trabalhadores, como exames periódicos e equipamentos de proteção individual, e que nenhuma ação efetiva por parte do empregador dos trabalhadores de endemias, no caso a administação pública, foi feita para proteger a saúde dos expostos aos venenos em um modelo químico dependente cenário adoecedor.
 
A integrante do Sindicato dos Trabalhadores do Serviço Público Federal no Estado do Rio de Janeiro (Sintrasef) Maria do Perpétuo Socorro Setubal denunciou o aprofundamento de políticas anti-povo, de retrocessos e retirada de direitos que têm ocorrido na atual conjuntura, com precarização dos serviços públicos e contaminação de trabalhadores da saúde por um lado, e por outro, sobrecarga e condições do trabalho remoto também levando a processos de adoecimento.
 
Já o integrante do Sindicato dos trabalhadores em Saúde, Trabalho e Previdência Social no Estado do Rio de Janeiro(Sindsprev/RJ) Marcos Rogério da Silva prestou solidariedade aos familiares e comunidades que perderam milhares por Covid-19 no mundo e no Brasil, incluindo o grupo de extremo risco dos trabalhadores de endemias com baixa imunidade, além das mortes que estes já vêm sofrendo pela exposição há muitas décadas, em um modelo que historicamente não leva em consideração os problemas ambientais e é reduzido à atual política desde os “mata-mosquitos”, de 1903.
 
Além da participação de cerca de 30 pessoas na plataforma virtual RNP usada na transmissão, a live contou, no pico, com cerca de 40 pessoas acompanhando pelo Facebook, com perguntas e discussão para a mesa que chamaram atenção, como o desabafo de um trabalho ao dizer "o que a gente que é controle e não combate". A atividade está salva no facebook do Cesteh e já conta com mais de 916 visualizações. 
 
 
Para conferir a atividade na íntegra, basta acessar a página do facebook do Cesteh
 

 

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