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Boletim monitora covid-19 nas favelas

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Publicado em:13/07/2020
A Fundação Oswaldo Cruz lança, nesta segunda-feira (13/7), o primeiro Boletim Socioepidemiológico da Covid-19 nas Favelas. De acordo com a publicação, o baixo número de casos e óbitos registrados nos bairros com “alta e altíssima concentração de favelas” se contrapõem às taxas de letalidade nessas regiões, que chegam a ser o dobro em relação aos bairros que não têm favelas. A publicação também aponta que a covid-19 é mais letal nos homens do que mulheres e o maior percentual de óbitos na população negra nos territórios periféricos. O Boletim, que estará disponível no Observatório Covid-19 da Fiocruz, é uma iniciativa da Sala de Situação Covid-19 nas Favelas. 
 
A pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública (ENSP/Fiocruz) Jussara Angelo explica que, em decorrência da complexidade de se obter dados em uma escala mais detalhada e que dê visibilidade à magnitude da covid-19 nas favelas cariocas, o boletim foi elaborado integrando três fontes de informação. Foram analisados dados oficiais do Painel da Prefeitura, dados dos painéis das unidades de saúde e do Voz das Comunidades. A publicação conta também com narrativas de interlocutores do território, que, através de suas experiências de vida e trabalho em diferentes regiões da cidade, colaboraram com a produção do material. 
 
Segundo dados do Censo 2010, estima-se que 22% dos habitantes do município do Rio de Janeiro moram em áreas de favelas. Para entender a distribuição da covid-19 na cidade, construiu-se uma tipologia urbana, cuja classificação dividiu os bairros em cinco áreas: sem favelas, concentração baixa, concentração mediana, concentração alta e concentração altíssima.
 
 
A taxa de incidência por covid-19, conforme a tipologia utilizada, mostrou que as áreas classificadas como “sem favelas” e “baixa concentração de favelas” são as que apresentaram maiores taxas de incidência da doença, respectivamente, de 115,58 por 10mil habitantes e 74,98 por 10 mil habitantes, ambas acima da média do município do Rio de Janeiro (70,71 por 10 mil habitantes). Os bairros classificados como “concentração altíssima de favela” apresentaram uma taxa de 23,94 por 10mil habitantes, de acordo com o boletim. 
 
Já a taxa de mortalidade por covid-19 apresentou o mesmo padrão da taxa de incidência. O registro foi maior nos bairros "sem favelas" e de "concentração baixa de favelas", com taxa, respectivamente, de 10,67 e 8,90 por 10 mil habitantes.
 
Porém, nos bairros Complexo do Alemão, Jacarezinho, Acari, Rocinha, Costa Barros, Vidigal e Barros Filho, considerados de “altíssima concentração de favelas”, a taxa de letalidade da doença é de 19,5%, ou seja, o dobro dos “bairros que não têm favelas” (9,2%) e muito acima da taxa do município (11,7%). “Além da questão da baixa testagem influenciando este indicador, a alta letalidade também pode indicar uma maior gravidade por covid-19 nesses territórios, que podem ser influenciadas pela presença de doenças pré-existentes como hipertensão, ou fatores de risco como tabagismo, além da dificuldade de acesso aos serviços de saúde”, afirmou Bianca Leandro, da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV) e uma das autoras.
 
Taxa de letalidade    


“A baixa testagem na cidade do RJ e a desigualdade na capacidade de testagem entre as áreas analisadas têm grande influência na invisibilidade dos casos e mortes por covid-19 no sistema de saúde. A letalidade nos bairros com alta concentração de favelas nos alerta para isso”, afirmou o pesquisador André Périssé, da Escola Nacional de Saúde da Fiocruz e um dos autores.
 
Gênero e raça
 
O boletim revela que apesar da ausência de preenchimento da variável raça/cor em 45% das notificações (22.416), a ocorrência da covid-19 é maior na população negra nos bairros classificados como “concentração altíssima”, “concentração alta” e “concentração mediana” de áreas cobertas por favelas. Nos bairros de “concentração baixa”, o percentual da população negra (25,6%) é muito próximo a ocorrência na população branca (27,6%). 
 
Com relação ao gênero, em todas as tipologias urbanas, as maiores taxas de mortalidade são do sexo masculino. Nos bairros com “altíssima concentração de favelas”, o valor da taxa de mortalidade entre os homens é de, aproximadamente, 6 a cada 10 mil habitantes do sexo masculino, enquanto nos “bairros sem favelas” chega a quase 14 por 10 mil habitantes. A taxa de letalidade apresentou padrão similar, sendo maior que a do sexo feminino em todas as tipologias urbanas. “Além do fator de realização da testagem, o diferencial entre homens e mulheres pode ocorrer em virtude da maior vulnerabilidade dos homens, busca tardia dos serviços de saúde e demais quadros de comorbidades”, afirmam, os autores. 
 
O Boletim Socioepidemiológico da Covid-19 nas Favelas é uma iniciativa da Sala de Situação Covid-19 nas Favelas, vinculada ao Observatório Fiocruz. O boletim foi desenvolvido pelos pesquisadores Jussara Rafael Angelo e André Périssé, da Ensp/Fiocruz, e Bianca Leandro, da EPSJV/Fiocruz. Na Fundação, tem parceria do Icict, Farmanguinhos e da Coordenação de Cooperação Social (CCS). A publicação é mensal.
 
*Foram utilizados dados oficiais do município do Rio de Janeiro, disponibilizados no painel da prefeitura, coletados até o dia 21 de junho de 2020.

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