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Entrevista: pesquisador fala sobre a produção de medicamentos para as doenças negligenciadas

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Publicado em:13/06/2019
A Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP) recebeu o membro do Conselho Diretor do Kellogg College e diretor do Instituto de Ciência, Inovação e Sociedade da Universidade de Oxford, Javier Lezaun, para ministrar uma palestra sobre a produção de novos medicamentos para doenças dos países pobres. Em entrevista ao Informe ENSP, o convidado fala sobre o momento em que houve redução do investimento em pesquisas e produção de medicamentos para as doenças negligenciadas e as iniciativas existentes nos dias de hoje. 
 
Javier fala também a respeito da importância da Fiocruz no desenvolvimento de pesquisas nessa área e os trabalhos em parceria desenvolvidos com Oxford sobre zika. Confira.
 
Informe ENSP: Sua palestra questionou a dificuldade na descoberta e produção de novos medicamentos para doenças dos pobres. O senhor tem a resposta para essa pergunta?
 
Entrevista: pesquisador fala sobre a produção de medicamentos para as doenças negligenciadasJavier Lezaun: Essa é uma questão complexa, sem uma única resposta. Em geral, historicamente, vem sendo difícil descobrir medicamentos contra doenças desatendidas, uma vez que não há investimento suficiente em pesquisa e desenvolvimento em inovação e produção de medicamentos. 
 
Porém, sabemos que, ao longo da primeira metade do século XX, os estados desenvolvidos tinham interesse nesse tipo de enfermidade por duas razões: Primeiro, porque esses países possuíam colônias em localidades em que tais doenças eram endêmicas, e, portanto, tratava-se de um problema “doméstico”. Outro motivo era que necessitavam de medicamentos para proteger seus exércitos durante as guerras mundiais. E muitos medicamentos que temos hoje em dia, como contra a malária, por exemplo, proveem de investigação militar.
 
Informe ENSP: A partir de quando esse cenário mudou?
 
Javier Lezaun: Os programas estatais militares de pesquisa europeus e americanos desapareceram nos anos 1960. Primeiro, houve um processo de descolonização, e, assim, as enfermidades deixaram de ser um problema “doméstico” para se tornarem um problema de outros países.
 
Além disso, a pesquisa e o desenvolvimento dos fármacos passaram a ser fomentados pelo setor privado; com isso, o critério fundamental para a organização das pesquisas passou a ser o benefício econômico. Estamos, de fato, falando de enfermidades que acometem populações impossibilitadas de “pagar um preço” que justifique o gasto em pesquisa. 
 
Informe ENSP: Especial da Fiocruz sobre Doenças Negligenciadas afirmou que um estudo recente sobre o financiamento mundial de inovação para essas doenças (G-Finder2, na sigla em inglês) revelou que menos de 5% desde financiamento foram investidos no grupo das doenças extremamente negligenciadas, ou seja, doença do sono, leishmaniose visceral e doença de Chagas, ainda que mais de 500 milhões de pessoas sejam ameaçadas por essas três doenças parasitárias. O senhor tem conhecimento desses valores?
 
Javier Lezaun: Não tenho precisão. Mas sei que o gasto total em pesquisa para doenças negligenciadas teve um incremento geral desde o começo do século. A maioria desse montante refere-se exclusivamente à HIV/Aids. É uma cifra maior do que a anterior, apesar de pequena se comparada ao gasto global em investigação e desenvolvimento de fármacos. Não me surpreenderia se fosse 5% ou menos, mas os números, nessa área, são complicados. 
 
Informe ENSP: Quais iniciativas existem hoje, no mundo, para estimular o investimento em pesquisas e a produção de medicamentos nessa área?
 
Javier Lezaun:  A principal iniciativa vem sendo o aumento do gasto em pesquisa. Esse acréscimo se deve, sobretudo, à participação de grandes fundações filantrópicas, por exemplo, Bill & Melinda Gates Foundation e a Wellcome Trust. Foram criadas organizações dedicadas exclusivamente à pesquisa nesse âmbito, que coordenam o gasto em pesquisa em determinadas áreas. Temos mais financiamento; esse financiamento, porém, é intermediado por um novo tipo de organização de parcerias público-privadas. A ideia é coordenar capacidades do setor privado ou acadêmico com financiamento do setor público ou filantrópico, além de conectar esses atores de forma eficaz.
 
Informe ENSP: Como o senhor vê a atuação da Fiocruz nesse campo?
 
Javier Lezaun:  A Fiocruz é um exemplo muito interessante porque tem programas de pesquisa, os quais são líderes internacionais em muitas dessas áreas, e, ainda, agrega significativa capacidade de pesquisa. O Brasil é um país especial não só por concentrar um sistema de investigação muito potente, como também por serem tais enfermidades um problema doméstico. Isso não acontece com a maior parte dos países africanos, por exemplo, pois eles possuem as enfermidades, mas não têm investigação, desenvolvimento tecnológico.
 
E o Brasil conta com outro aspecto interessante que é Farmanguinhos/Fiocruz, ou seja, um laboratório destinado à fabricação e desenvolvimento de medicamentos no setor público. Esse é um exemplo de capacidade não só de investigação, mas também de desenvolvimento farmacêutico no setor público, além de uma visão de saúde pública, não simplesmente de humanitarismo médico.
 
Informe ENSP: Como iniciaram os trabalhos em parceria com a Fiocruz?
 
Javier Lezaun: Minha relação com a Fiocruz começa com o tema da zika. Temos uma colaboração entre ENSP/Fiocruz, por meio do Gustavo Matta, e Oxford para analisar o impacto da crise no Brasil e a resposta institucional da epidemia de zika desde 2015. Queremos expandir essa pesquisa para outras áreas. Meu trabalho, em Oxford, não é específico sobre zika, e sim a respeito das doenças negligenciadas no que se refere à organização social da produção do conhecimento científico e do aporte que as ciências sociais podem fazer em relação ao desenvolvimento de sistema de investigação mais produtivo e sustentável.
 
Estamos atuando em várias direções. Temos interesse na capacidade de as instituições de diferentes países compartilharem dados entre si. Queremos saber como o Brasil pode se beneficiar do compartilhamento de dados científicos com outros grupos de investigação, de outros países. Queremos discutir formas de compartilhar dados mais equitativos.
 
Acredito também em mais projetos para desenvolver a área de estudos sociais, ciência e tecnologia, bem como revitalizar a investigação sociológica, antropológica e bioética relacionada aos problemas de saúde pública no Brasil.
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